• marciopauloas96

Amílcar Cabral, muito mais que um sonho!

Quando estudamos o continente africano nas escolas públicas do Brasil, pouco se é falado sobre os revolucionários, anticolonialistas ou afrofuturistas do continente. Ouvimos assuntos esparsos que envolvem Nelson Mandela e o Apartheid, as independências africanas da década de 60 em formato de lista em notas de rodapé, coisas que não julgam ser uteis para construir um pensamento crítico. Em 20 de janeiro de 1973, um dos maiores pensadores e revolucionários do continente mãe foi assassinado de forma covarde, em um crime jamais solucionado pela polícia local, mas previsto pelo próprio: “quando for assassinado, sê-lo-ei por um homem do meu povo, do meu partido, provavelmente fundador, ainda que guiado pelo inimigo”.

Amílcar Cabral nasceu em Guiné Bissau, mas teve sua infância no Cabo Verde, passou vários anos mudando de moradia, devido a graves problemas de fome e seca no Cabo Verde, conseguiu uma bolsa de estudos para estudar agronomia em Lisboa - único negro da sua turma - e logo se envolveu em grupos antifascistas ao lado de outros africanos. Note, era bem complexo ter uma bolsa de estudos em outro país, principalmente europeu, devido às dificuldades impostas pelo imperialismo. Amílcar era um notável aluno, depois de formado retorna a Guiné Bissau para trabalhar no ministério ultramar nas questões agrícolas.

Desenvolvendo o seu trabalho no ministério, começa a perceber a realidade tanto intelectual, financeira, da moradia e da saúde do país. Com isso ele cria a primeira Associação Esportiva, Recreativa e Cultural da Guiné, aberta tanto para os guineenses quanto para indígenas, e gera uma antipatia com o governo local, que era comandado por portugueses, Guiné Bissau ainda era uma colônia portuguesa. Amílcar é obrigado a emigrar para a Angola, lá, une-se ao MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), começa a participar de conferências e percebe a necessidade mundial pela luta anticolonial, tomando assim conhecimento de movimentos pela libertação de países em situação parecida com a de Guiné e Cabo Verde. Assim, junto com amigos e seu irmão, Luís Cabral, fundam o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), que tem por objetivo reunir militantes e simpatizantes para uma luta armada e revolucionária contra o governo português.

Em 1959, o partido participa da greve de trabalhadores do porto de Pidjiguiti, que foi fortemente reprimida pela polícia local portuguesa, resultando em 50 mortes e centenas de feridos. Depois de quatro anos como partido clandestino, o PAIGC é legalizado e parte em uma ofensiva contra a colônia, e em 23 de janeiro de 1963, tem início de forma oficial a luta armada e anticolonial contra Portugal, com pleno apoio popular.

Em 1970, com a sua produção intelectual em pleno vapor, juntamente com Agostinho Neto, outro grande pensador africanista, são chamados para uma visita até o Vaticano, onde conhecem o Papa Paulo VI, nesse mesmo ano, a polícia portuguesa lança uma operação chamada “Operação Mar Verde” que tinha como objetivo matar ou capturar todos os membros do PAIGC. Os portugueses não obtêm sucesso, e o PAIGC continua sua luta pela independência de Guiné Bissau e Cabo Verde.

Porém, alguns anos depois, em 20 de janeiro de 1973, Amílcar Cabral é morto por dois membros do seu próprio partido. Mesmo com a sua morte, a luta armada é intensificada e Guiné Bissau é considerada independente, e seu irmão Luís de Almeida Cabral é empossado como primeiro presidente do país independente.

Amílcar Cabral não viu seu país independente, e hoje o país sofre com desigualdades sociais, desemprego, fome. O legado de Cabral foi para o futuro de Guiné Bissau e Cabo Verde, porém foi golpeado com a sua morte e depois com os sucessivos erros administrativos; um Golpe de Estado depôs seu irmão do poder, de forma ilegítima e entreguista. O partido por ele fundado ainda lutava por uma região mais próspera, mas sem o seu principal porta voz, a luta foi esvaziada e golpeada pelo imperialismo. Já Cabo Verde mostra para toda a África que é possível sobreviver mesmo com as intimidações imperialistas e de países subordinados ao imperialismo, Cabo Verde é local da resistência de Amílcar, um revolucionário que tinha ideias para uma revolução armada e popular.


Hoje devemos celebrar a sua resistência e a sua contribuição para uma África mais independente, que não esqueça de suas raízes e veja que a revolução é a melhor saída. Leiam Amílcar, descubram mais sobre quem lutou contra o imperialismo. Rebelar-se é justo!


Amílcar Cabral para sempre nos corações revolucionários.


Márcio Paulo é historiador, pós graduado em Filosofia e graduando em Ciências sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul, e colunista da revista Clio Operária.



Bibliografia


https://almapreta.com/editorias/realidade/quem-foi-amilcar-cabral-o-pedagogo-da-revolucao-assassinado-ha-47-anos


https://www.dw.com/pt-002/quarenta-anos-ap%C3%B3s-a-morte-de-am%C3%ADlcar-cabral-o-que-resta-do-seu-sonho-africano/a-16803396


https://www.dw.com/pt-002/para-am%C3%ADlcar-cabral-a-educa%C3%A7%C3%A3o-era-a-principal-arma-da-liberta%C3%A7%C3%A3o/a-18200807


VILLEN, P. Amílcar Cabral e a crítica ao colonialismo – Entre harmonia e contradição. 1ª edição. Editora Expressão Popular. São Paulo, 2013. 223 páginas.


LOPES, C. Desafios contemporâneos da África - o legado de Amilcar Cabral. Ed. Unesp.


77 visualizações
apoie.png