• Layana Sales

Além das flores e dos sutiãs queimados: a origem do dia das mulheres é SOCIALISTA.


O dia internacional da mulher não surgiu das operárias mortas em uma fábrica dos Estados Unidos, como muitos pensam, essa representação foi concedida posteriormente. Apresentar essa concepção como a formação e o início do Oito de Março, reduz a intensidade do movimento a favor dos direitos das mulheres.

Começarei, leitor, por Clara Zetkin, feminista alemã que lutou pelo direito das operárias e dos operários em um período de extrema exploração da classe trabalhadora, o final do século XIX e começo do XX. Zetkin recorreu ao feminismo para pautar as reivindicações das mulheres em meio à luta trabalhista, dando voz a essa parcela esquecida do movimento operário. Assim sendo, em 1910, no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, propôs o que seria o Dia Internacional da Mulher, mas não nos moldes que conhecemos hoje, muito menos abrangendo a crueldade ocorrida com as mulheres operárias estado-unidenses em 1857.

Para compreender a atuação de Clara e suas companheiras, é necessário entender o movimento operário nos primeiros anos do século XX. O movimento operário, em todo o globo – mesmo com suas diferenciações pontuais e locais -, apresentava em suas exigências a luta por salários dignos, menos horas de trabalho, o fim do trabalho infantil, entre outras demandas. Dessa maneira, relutava-se em encaixar as solicitações femininas, como escolas primárias e creches, licença maternidade e salários igualitários, pois apontavam essas medidas como atrasos para as conquistas operárias.[1]

Dentro desse cenário, Clara Zetkin, juntamente com suas companheiras, apresentaram a diferenciação entre dois pontos: (1) o movimento operário e as requisições femininas e (2) o movimento feminista burguês e as exações das trabalhadoras. Perante tal situação, ela criou o movimento das trabalhadoras alemãs, que reuniu, em número máximo, 174.754 membros durante 1914, ano que também circulou o jornal "A Igualdade".

Essa ebulição social das mulheres mudou a reação das trabalhadoras e trabalhadores sociais democratas alemães, levando a formação da I Conferência Internacional de Mulheres Socialistas[2], a qual levantou a bandeira do sufrágio feminino.


"O Dia Internacional da Mulher foi proclamado pela Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, celebrada em Copenhague, em 1910. O convite à mesma já deixava claro seu caráter de classe: ‘Convidamos urgentemente a todos os partidos socialistas e organizações de mulheres socialistas, assim como a todas as organizações de trabalhadoras baseadas no princíipio da luta de classes a enviar suas delegadas, ou inclusive seus delegados, a esta conferência." (FRENCIA; GAIDO, 2017).


A delegada Luise Zietz, foi quem propôs esse dia, significado pelo 8 de março, pois nesse dia, no calendário russo, mulheres pararam seus trabalhos exigindo o fim da Primeira Guerra Mundial e melhores condições trabalhistas, tendo essa greve dado início a Revolução Russa em 1917[3]. Esta, teve respaldo de Clara Zetkin e de mais 100 delegadas, tornando, portanto, o Dia Internacional da Mulher no dia da luta das trabalhadoras. As demandas apresentadas por esse dia eram creches e jardins de infância, igualdade salarial, legislação protetora às trabalhadoras, alimentação gratuita, ensino de qualidade, além, claro, do sufrágio feminino.

À vista disso, o dia das mulheres é um lembrete anual da relação entre mulheres trabalhadoras e revolução, rememorando-nos da eficácia da união de tais, como também da policlassía do movimento feminista. Relembra-nos, de mesma forma, da luta pelos direitos trabalhistas e das mulheres, os quais foram e continuam sendo alcançados pouco a pouco pela força anti-capitalista.


NOTAS:

[1] Para maiores informações sobre a luta dos direitos das mulheres no Brasil ver FRACCARO (2018).

[2] Algumas fontes intitulam, também, esse evento como “Congresso Internacional das Mulheres Socialistas”.

[3] Relembro aos leitores que a periodização do dia das mulheres revela uma gama de datas, não tendo certeza qual seria o ano oficial de criação de tal data.


REFERÊNCIAS

BLAY, Eva Alterman. 8 DE MARÇO: conquistas e controvérsias. Estudos Feminsitas, Florianópolis, v. 18, n. 9, p. 601-607, jul. 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ref/v9n2/8643.pdf. Acesso em: 04 mar. 2021.

FRACCARO, Glaucia. Os direitos das mulheres: feminismo e trabalho no Brasil (1917-1937). Rio de Janeiro: FGV, 2018.

FRENCIA, Cintia; GAIDO, Daniel. As origens operárias e socialistas do Dia Internacional da Mulher. 2017. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/as-origens-operarias-e-socialistas-do-dia-internacional-da-mulher/. Acesso em: 03 mar. 2021.

Layana Sales é estudante de história, pesquisa sobre história das mulheres latino-americanas nos regimes militares.

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