• marciopauloas96

Afrofuturismo de uma perspectiva concreta


O Afrofuturismo é um elemento das histórias de ficção científica que envolve histórias africanas e a ficção científica como elemento para um futuro no qual a África é o epicentro de um mundo que envolve as tradições e a pele negra como parte fundamental da literatura. Pela falta da representatividade na literatura e uma elucidação do negro enquanto negro, como todo negro, é uma aceitação o fato de ser negro em uma sociedade que esquece das figuras negras, seja em qualquer área, com exceção do futebol. Nós, negros e negras, das mais diversas áreas, precisamos ler e compreender o pensamento da humanidade, assim como Frantz Fanon em seu livro, Peles negras, Máscaras Brancas, através da experiência colonial, faz a sua análise com base em que o colonialismo como parte da produção do conhecimento, e que tornou a produção africana invisível e até imperceptível, mas sem abrir mão dos textos ocidentais e sim com a intenção de somar com os textos africanos que falam sobre a sociedade contemporânea, e que mostram a sociedade capitalista de forma concreta, fazendo a sua crítica em volta do colonialismo, porém sem abrir mão do ocidente, pois para Fanon, o saber não é do branco, o saber é racializado pelo branco, é posto como crítica, não quem define o que é do branco ou do negro e sim tomar a percepção do conhecimento humano.

Diversos revolucionários pensaram na pele negra como parte primordial da luta anticolonial e antirracista como fundamental. Porém, para ser negro é necessário saber que é negro? E como o afro futurismo pode ajudar a trilhar o caminho?

As artes são parte dessa construção afrofuturista. Quando pesquisamos expoentes do afro futurismo temos dois músicos basilares para a soul music norte americana: Sun-ra e George Clinton - que através de referências artísticas da ficção científica constroem seus projetos inspirados pela cultura espacial devido a corrida armamentista e espacial vinda da guerra fria,filmes como Star Wars e Blade Runner, mesmo que a representatividade negra sendo praticamente ínfima, ambos conseguem tirar proveito e trilhar seus caminhos que colocam os elementos africanos como parte da sua arte, tornando a ideia de Fanon, mesmo que não intencionalmente, de criar um saber humano e não branco ou negro - tentam universalizar seus sons, tendo como base artistas africanos como Fela Kuti e a sua explosiva banda Afrika 70.


É possível enxergar o afrofuturismo no Brasil, por meio das canções e trejeitos de Itamar Assumpção, que com suas letras e sonoridades não vistas antes, e o apoio de um dos maiores musicistas brasileiro, Naná Vasconcellos, cria uma MPB brasileira/africana que coloca no centro da discussão o negro e suas características. Apesar de todo o boicote que Itamar sofreu na sua época, ainda é possível enxergá-lo com sua marca no meio do tempo.


Na música brasileira temos diversos músicos negros que trazem consigo a história daqueles que foram esquecidos. Pensar na África como potência e como epicentro de uma efervescente cultura que passa a ser valorizada por meio do resgate da sua memória, e filmes como Infiltrado na Klan de Spike Lee, e Pantera Negra jogam luz sobre a identidade negra no espaço e no tempo, rememorando figuras como Malcolm X, e valorizando as vestimentas tradicionais, mesclando com as tecnologias de um futuro não tão distante colocam a negritude no seu patamar mais alto, mostrando o quão valoroso é se dedicar a ser negro, e deixar claro a sua história, O afro futurismo tem espaço na discussão marxista de Fanon em suas obras, em Sankara com a sua firme posição de reconstrução de uma Burkina Faso próspera, em Huey Newton e a construção dos Panteras Negras. Para além, através da musicalidade de Fela Kuti é possível ver as denúncias contra o colonialismo e a sua luta anticolonial depois de conhecer as lutas de Malcolm X e Martin Luther King, demonstrando com toda a força de vontade para libertar o seu país das mãos coloniais.


O afrofuturismo é um modo de ensinar aos próximos e aqueles que não conhecem a cultura africana como parte do processo de construção do povo brasileiro, quando se valoriza a cultura matriz, a nossa própria cultura é alimentada com maior valorização daquilo que é construído. Losurdo em fuga da História?, pontua o imperialismo e o colonialismo como agentes da falta da memória histórica.

“Examinemos a história do colonialismo e do imperialismo: o Ocidente eliminou os índios da face da terra e escravizou os negros; submeteu outros povos colonizados a uma sorte análoga, mas isto não impediu o Ocidente de apresentar e celebrar sua expansão como a marcha da liberdade e da civilização enquanto tal. Essa visão terminou de tal modo por conquistar ou condicionar poderosamente as próprias vítimas que, na esperança de serem cooptadas ao seio da “civilização”, interiorizam a sua derrota cancelando a própria memória histórica e a própria identidade cultural” – Fuga da História? p. 53.

A partir desse trecho de Losurdo é possível enxergar que por sermos vítimas do colonialismo, temos as nossas próprias histórias perdidas e não encontramos a nossa identidade cultural. O afro futurismo é o movimento que coloca o negro de maneira que ele encontre a sua identidade, para que não perca a sua essência, trazendo para si a intelectualidade e as artes como pontos chaves para descobrir o que é ser negro e aonde estão suas raízes.


A perspectiva desse texto é desagarrar a discussão da perspectiva idealista e ter uma perspectiva de ruptura através do campo político mais amplo, tendo como base a análise marxista pela perspectiva de Fanon, com a ideia de luta anticolonial, trazendo a tona concretude para a discussão, mostrando através das artes e da musicalidade negra as principais formas de propagar as ideias do futuro negro, saindo da perspectiva ficcional e trazendo as bases marxistas para um conhecimento do negro, parafraseando com a análise de Fanon quando usa artifícios para demonstrar que o negro não tem conhecimento de ser negro, até a ideia ser potencializada e racializada pela perspectiva do branco, buscando a desracialização do mundo através de um humanismo radical, usando a ótica do camarada Jones Manoel, que Fanon busca a universalidade da produção humana, tirando a premissa de pensamentos dos brancos ou pensamentos dos negros, e sim um pensamento humano. É uma perspectiva afrofuturista enxergar um futuro real sem que a racialização seja parte da discussão e sim uma busca pela universalidade.


No campo político é fundamental analisar a luta anticolonial e resistência de países africanos nas décadas de 60, 70, 80, tendo como base a revolução arquitetada por Thomas Sankara quando retira Burkina Faso do imperialismo francês e coloca os próprios burquinenses como parte fundamental de um processo para revitalização do país, erradicação do analfabetismo, lutando contra fome, realizando a reforma agrária, a autossuficiência do país em produtos e a sua independência econômica, a renda básica para os cidadãos, equidade de gênero e sustentabilidade. Uma sociedade real que foi moldada pelo marxismo de Sankara, com a ideia de livrar-se do imperialismo e prosperar, pode ser considerada uma ideia afrofuturista até para os dias de hoje; e tudo isso foi idealizado na década de 80. Uma sociedade em sua maioria negra e que tinha um presente sem fome, sem analfabetismo, é um afrofuturo.


Ainda usando a ideia de afrofuturismo concreto, é possível analisar a fundação do Partido dos Panteras Negras como uma organização urbana que pensou o negro em uma perspectiva de valorização enquanto ser humano, uma discussão posta que é tão afrofuturista quanto real; discutir qual a posição do negro na sociedade, lutar contra um capitalismo de uma perspectiva social e marxista, de maneira que alçando o negro a sua intelectualidade para que compreenda o quanto o capitalismo estrangula suas gargantas. Usando como base o pensamento de Fred Hampton, um dos fundadores do partido, é possível enxergar a sua visão afro de um futuro, quando diz a seguinte frase em uma entrevista em um comício em Illinois: “ Vamos combater o racismo, não com racismo, mas com solidariedade[...]”, essa citação mostra de forma uníssona que a ideia de combater o racismo com afrofuturismo é algo concreto que tem sido feito por experiências marxistas ao longo dos anos.


O afrofuturismo dialoga diretamente com o pan-africanismo, os ideais socialistas colocados em voga dentro da coletividade africana, desmistificando a ideia de que a realidade africana é apenas precária, e sim que é necessário pensar no futuro africano como ponto de partida para uma revolução de pensamento. Porém, persiste a pressão externa do imperialismo que atormenta os pensamentos futuristas, colocando em dúvida a efetividade e força de trabalho.

Quando analisamos de uma perspectiva econômica, o Brasil tem perdido influência no continente africano, devido a ideia africana de autossuficiência para produção de grãos, isso é algo que foi empregado por Sankara quando idealizou o projeto de Burkina Faso ser independente de países externos na sua agricultura, é uma perspectiva que vem da década de 80 que podava um futuro do qual estamos, mesmo que de forma pequena, vendo acontecer.


No Brasil é necessário dialogar com a cultura negra e com aqueles que foram e que são marginalizados da história, tanto Itamar Assumpção, Jards Macalé, e tantos outros artistas que foram taxados como “malditos” por conta de suas sonoridades ter influências de lugares que o imperialismo não conseguiu explorar e acabar com a originalidade. É necessário analisar as letras de músicas que valorizam a cultura do negro, é absolutamente necessário ler e buscar referências desde as canções de Jorge Ben que citam Zumbi dos Palmares, este que é estigmatizado por uma cultura hegemônica que tenta deturpar sua resistência, o Quilombo dos Palmares é uma sociedade afrofuturista, sem propriedade privada, distribuição e participação política. É necessário educar as próximas gerações e as gerações que aqui estão.


Itamar Assumpção gravou um single que foi lançado recentemente de forma póstuma, colocando ele novamente na trilha do afrofuturismo com as suas características bem fundamentadas.
https://genius.com/Itamar-assumpcao-beleleu-via-embratel-lyrics

A literatura é um grande ponto a ser analisado, nomes como Clóvis de Moura, Abdias do Nascimento são de extrema importância para uma formação ideológica do negro na sociedade. Devemos compreender a história daqueles que foram silenciados e que ainda são, entender a dinâmica do que é ser negro no Brasil. Autores que escrevem livros e histórias em quadrinhos que utilizam da ficção e misturam o afrofuturismo como base, como por exemplo Angola Janga – Uma história de Palmares, do autor Marcelo D´salete, que conta através dos quadrinhos a história do Quilombo dos Palmares, temos também Conto dos Orixás, onde o autor Hugo Canuto utiliza de deuses africanos como heróis nos moldes das histórias da Marvel Comics, explorando não só a religião, mas também inserindo conteúdos futuristas na história dos orixás,, temos também Fábio Kabral que é autor de livros como O caçador cibernético da rua 13 que traz consigo a cultura iorubá e mistura com elementos da ficção afrofuturista.


O afrofuturismo é um caminho para pensarmos o negro e em uma perspectiva marxista, é necessário que de forma real e concreta liguemos a ponte entre o marxismo e o afrofuturismo, um é caminho para o outro, e assim será possível tirar do plano das ideias e trazer para o plano concreto enxergar um futuro onde o negro é parte fundamental de um processo de descoberta da sua matriz africana. É necessário reeducarmos e educarmos para que seja possível trazer o futuro para mais próximo de nós. Por fim, é necessário ler, entender, compreender, ouvir e valorizar a cultura negra, e lembrar que a racialização não nos pertence, a racialização é algo que foi imposto. Fanon nos mostra o caminho, é necessário percorrer.


Márcio Paulo é historiador, pós graduado em Filosofia e graduando em Ciências sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul, e colunista da revista Clio Operária.



Bibliografia


LOSURDO, Domênico. Fuga da História? As revoluções Russa e Chinesa vistas de Hoje. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2004.


MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro, Editora Ática S.A, 1988.


Organizadores: Jones Manoel e Gabriel Landi Fazzio. Revolução Africana – Uma antologia do pensamento marxista, Editora Autonomia Literária, 2019.


KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África? Editora Pallas, 2006.


FANON, Frantz. Os condenados da terra. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. 275 p


FANON, Frantz. Peles negras, máscaras brancas. Editora Edufba,2008.























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