• Ricardo Normanha

A vitória de Boulos

Sem clichês e apego à derrota, é importante compreender o saldo positivo do processo eleitoral na cidade de São Paulo e sua articulação com o cenário nacional.


Passada a euforia e a ressaca do segundo turno das eleições municipais na cidade de São Paulo, acumulam-se análises sobre o resultado do pleito. Esta coluna será mais uma dessas análises, mas uma análise menos preocupada com dados, números, porcentagens e estatísticas e mais atenta aquilo que a frieza dos números não dão conta de apreender. Também procurarei aqui analisar o pleito e o seu resultado final para além da própria eleição. Trata-se de buscar compreender o sentido e os significados dos resultados na dinâmica das lutas do povo nos últimos anos e nos próximos, sem qualquer pretensão de fazer exercícios de futurologia.


Embora não tenha conseguido alcançar a maioria dos votos, a campanha de Boulos foi vitoriosa. Sem clichês e apego à derrota, é importante compreender o saldo positivo do processo eleitoral na cidade de São Paulo e sua articulação com o cenário nacional. Estamos acumulando derrotas atrás de derrotas há muitos anos. Desde, pelo menos, 2013, o refluxo da esquerda (aqui entendida como um campo amplo dentro do espectro político) têm permitido que os setores mais conservadores da sociedade imponham a pauta política. Nas cordas e acuada, a esquerda demonstrou nos últimos anos uma postura reativa e, ainda assim, em muitos momentos, uma reação frágil e com pouco poder de alteração da correlação de forças. É claro que, mesmo reativa, a mobilização da esquerda tem permitido estabelecer alguns limites ao projeto ultraliberal que nos encaminha no sentido da barbárie.


Mas a campanha de Boulos possibilitou que a esquerda pudesse apresentar um projeto de sociedade alternativo, que aponta para outros caminhos possíveis. E, o mais importante: conseguiu aderência na sociedade. A campanha, que não começou (e nem vai terminar agora), é fruto de um trabalho consistente construído organicamente nas periferias junto aos trabalhadores e trabalhadoras que compõem os setores mais precarizados do mercado de trabalho e que tem no MTST um componente organizativo fundamental, mas que também contou com a dedicação militante de lutadores do povo organizados no PSOL, UP e PCB, além, é claro, de ativistas e militantes independentes. Boulos e Erundina tornaram-se nesta eleição porta-vozes de um projeto coletivo em construção e que está apenas começando.

A eleição possibilitou que esta luta travada cotidianamente nos bairros fosse amplificada, engajando jovens em busca de um projeto de sociedade distinto. Ao longo do processo, enfrentando a enxurrada de fake news, a campanha desmistificou a atuação do movimento por moradia e mostrou ser possível e viável a construção de políticas de participação popular de enfrentamento ao desemprego, ao descaso com a saúde e educação e às máfias e esquemas. Além disso, o processo reforçou os argumentos que indicam que a organização dos trabalhadores e trabalhadoras, no atual contexto de transformações no mundo do trabalho, passa pela questão territorial, do direito à cidade, da luta por moradia e mobilidade urbana e pela articulação entre partidos, sindicatos e movimentos sociais.

O resultado das urnas garantiu a continuidade do projeto privatista e oligárquico do PSDB e aliados, que há décadas dominam a política institucional paulista. No entanto, não é desprezível o fato de uma liderança política de um dos movimentos sociais mais criminalizados do Brasil tenha conquistado mais de 2 milhões de votos. Sobretudo se levarmos em conta que o projeto bolsonarista ainda ecoa (embora relativamente enfraquecido) na sociedade. Há dois anos estávamos imersos em uma disputa eleitoral pautada por “kit gay” e “mamadeira de piroca”. Agora pudemos propor um projeto socialista de sociedade. Mas o resultado também mostrou que um campo de disputas se abriu, que existe uma parcela significativa da população que busca alternativas e está disposta a lutar por isso. Ainda que a frieza dos números tenha indicado um percentual ainda baixo de eleitores, o salto organizativo deste processo é fundamental para as lutas que virão. Derrotado no pleito, Boulos sai vitorioso como um dos principais nomes capazes de articular esta luta coletiva.


Ricardo Normanha é sociólogo e professor.

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