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A Teologia da Libertação e o possível caráter revolucionário da religião

Rafael Lopes*


A atual conjuntura brasileira tornou discussões que já eram complicadas em debates ainda mais complexos. Como analisar a nossa realidade sem cair em análises rasas? Ou se antecipar em assuntos que ainda exigem uma melhor leitura? Mesmo com as atuais dificuldades não podemos ficar parados.


Iglesia de El Salvador — Santa Cruz de La Palma

Todo comunista já ouviu ou leu a tal tão famosa frase de Karl Marx, presente na Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, “religião é o ópio do povo”. A frase pode parecer de certa forma simples e direta, porém é fácil de se perder caso não analisarmos com atenção a nossa realidade para assim empregar a frase. Analisemos todo o parágrafo:


A miséria religiosa é, num aspecto, a expressão da miséria real e em outro, o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura atormentada, a alma de um mundo sem coração, da mesma forma que é o espirito das situações desprovidas de espirito. É o ópio do povo. (MARX, 2010)


Marx destaca não só o caráter de alienação que a religião tem, como também destaca seu caráter de “protesto contra a miséria real”. Por meio da religião o ser vai lamentar sua condição e nela ele procurará refúgio para superar as dores da vida. Ela servirá como alivio, como fuga da realidade. Nela ele clamará pelo fim de sua miséria. Porém, para além de um refúgio, ela também terá seu caráter alienador da realidade. Esse caráter, analisaremos a seguir.


Primeiro temos que separar religião de religiosidade. A primeira diz respeito principalmente as instituições religiosas, já a segunda é a ação da fé. A religião não sobrevive sem a religiosidade, porém, a religiosidade sobrevive sem a religião. A pessoa não precisa participar de uma instituição religiosa para praticar sua fé; você pode pregar o evangelho de Cristo no seu dia a dia, sem ter que comparecer aos domingos na igreja.

Tanto a religião como a religiosidade vão passar por diversas mudanças ao decorrer da história. Por exemplo, a Igreja Católica era defensora fiel do feudalismo e da monarquia na Europa, se opôs e combateu a burguesia revolucionária durante o século XVIII, porém, quando essa burguesia se estabeleceu como classe dominante, a Igreja se pareou a ela e começou a fazer a manutenção da ordem de exploração capitalista. Mas as mudanças não pararam por aí. Com o decorrer da exploração capitalista, a condição da classe trabalhadora só se deteriorou e as contradições do capitalismo ficaram cada vez mais visíveis — na real, é necessário um tremendo esforço para esconder essas contradições. Para além disso, ao analisarmos os ensinamentos bíblicos, um aspecto estará presente em seus escritos: a empatia. Dessa empatia, junto as condições cada vez mais precárias dos pobres, uma parte da igreja vai se transformar. Ao ver o sofrimento cada vez mais gritante dos pobres, setores da igreja, principalmente na América Latina, vão ter que rever sua fé, vão buscar uma forma de aliviar essa dor. E ao fazerem isso, transformaram a igreja.


Dando um salto temporal e indo para a América Latina do século XX, um movimento dos cardeais latinos pós Conferência de Medelín de 1968, vai dar origem a Teologia da Libertação, como coloca Rodrigo Augusto Leão Camilo, no artigo A Teologia da Libertação no Brasil: das formulações iniciais de sua doutrina aos novos desafios da atualidade:


Foi nesse contexto do aumento do envolvimento da Igreja Católica com a realidade de seus fiéis, no processo de agionamento em relação ao secular, com o agravamento das questões sociais na América Latina e o surgimento dos opressivos regimes militares na América Latina que se organizou dentro da Igreja Católica o movimento da Teologia da Libertação. (CAMILO, 2011)


A precária vida dos pobres e os sucessíveis golpes militares na América Latina que, além de agravarem a desigualdade social, vão instaurar governos autoritários, fará com que a Teologia da Libertação surja como uma alternativa que buscava aplicar os ensinamentos de Cristo com o objetivo de aliviar a dor dos mais pobres, buscando por mudanças no sistema social, econômico e político. Daniel Hunt, no artigo Seja feita a vossa vontade: a guerra santa no Brasil, citará o relatório de Nelson Rockefeller para o presidente Nixon, dos Estados Unidos, da América sobre as intenções dessa nova teologia que vinha surgindo na América Latina:


“As comunicações modernas e o aumento da educação provocaram uma agitação entre o povo que teve um impacto tremendo na Igreja, tornando-se uma força dedicada à mudança — mudança revolucionária se necessário…” (HUNT, 2018)


Claro que o relatório vai exagerar no impacto que a Teologia da Libertação podeira ter, apelando aos misticismos da suposta “ameaça comunista”, porém seus líderes na busca por mudanças vão entrar cada vez mais em confronto com as autoridades.


Mas quais eram os objetivos da Teologia da Libertação de uma forma mais explicativa? Michel Lowy enfatiza oito pontos que servem como pilares da soteriologia da Teologia da Libertação, como destaca Camilo:


A libertação humana como antecipação da salvação final em Cristo, uma nova leitura da Bíblia, uma forte crítica moral e social do capitalismo dependente, o desenvolvimento de comunidades de base cristãs entre os pobres como uma nova forma de Igreja e, especialmente, uma opção preferencial pelos pobres e a solidariedade com sua luta de autolibertação. (CAMILO, 2011)


A solidariedade com a luta dos pobres pela sua autolibertação e a crítica moral e social do capitalismo dependente vai de encontro com os ideais comunistas. Nisso, fica claro que a religião e a religiosidade em si não são ruins para o trabalhador, e nem necessariamente vão buscar sistematicamente a alienação de sua realidade, mas sim, o uso das instituições religiosas pelas classes dominantes para tirar o foco do trabalhador em mudar a sua realidade concreta, concentrando sua esperança num mundo pós morte, que são prejudiciais a vida do trabalhador. A igreja, como qualquer instituição que tenha poder sobre a população, será usada pela burguesia para fazer a manutenção da ordem. Mas a generalização da frase de Marx, de que a religião é o ópio do povo, sem essa análise critica da realidade, só afastará o trabalhador, já condicionado a moral imposta por essa igreja que serve aos interesses do capital, da teoria revolucionária marxista. A igreja que serve ao capital, não apenas combate os marxistas, como também as teologias que buscam um questionamento da ordem dominante, como por exemplo a Teologia da Libertação.


É preciso uma análise delicada da nossa realidade, para assim conseguir aproximar a teoria revolucionária aos trabalhadores. Combatendo as instituições religiosas que fazem a manutenção do poder da burguesia, mas sem proibir os trabalhadores de praticarem sua fé. Já dizia V. I. Lenin:


Cada um deve ser absolutamente livre de professar qualquer religião que queira ou de não aceitar nenhuma religião, isto é, de ser ateu, coisa que todo o socialista geralmente é. (LENIN, 1984)


Um exemplo bem claro de como é possível se afastar da religião mantendo sua religiosidade é dos trabalhadores que durante a Revolução Russa de 1917 largaram a Igreja Ortodoxa, mas não abriram mão de sua religiosidade ortodoxa. Do mesmo modo, é possível para nós, trabalhadores brasileiros, a autolibertação sem abrir mão de nossa fé. Devemos, como comunistas, pregar a ciência e seus desdobramentos, mas jamais devemos impor nada à fé dos trabalhadores, devemos respeitas suas liberdades pessoais. Lembremos sempre da Teologia da Libertação e de seu caráter libertador — e até revolucionário, quando tentarmos em cair em conceitos pequenos burgueses e equivocados.


*Rafael Lopes é historiador e educador popular da Rede Emancipa.


Referencias:


Camilo, R. A. L. A Teologia da Libertação no Brasil: das formulações iniciais de sua doutrina aos novos desafios da atualidade, disponível em: <https://www.cidadelivre.org.br/index.php/pt/biblioteca/download/31-teologia-da-libertacao/54-a-teologia-da-libertacao-no-brasil-das-formulacoes-iniciais-de-sua-doutrina-aos-novos-desafios-da-atualidade/>. Acesso em: 15 fev 2020.


Hunt, D. Seja feita a vossa vontade: a guerra santa no Brasil, disponível em: <http://www.brasilwire.com/seja-feita-a-vossa-vontade-a-guerra-santa-do-brasil/>. Acesso em: 15 fev 2020.


Marx, K. Contribuição à crítica da filosofia de direito de Hegel. 1. Ed. São Paulo: Expressão Popular. 2010.


Lenin, V. I. O Socialismo e a Religião. Disponível em: < https://www.marxists.org/portugues/lenin/1905/12/03.htm>. Acesso em: 06 mar 2020.

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