• Celia Regina da Silva

A romantização da infância e a hipocrisia da cultura natalina


Nunca escondi de ninguém minha ojeriza à cultura natalina e a todos os hábitos consumistas que a sustentam. Sei que parte desse sentimento está relacionado ao fato de que, desde criança, o período natalino para mim foi fonte de muito sofrimento, frustração e sensação de inferioridade. Em casa nunca tivemos árvores, guirlandas, luzes e toda essa parafernália natalina e muito menos historinha de que o papai Noel iria trazer o que quer que seja. Me lembro bem que havia, somente, uma preocupação com roupas e calçados novos para “passar o natal” e, em função disso, recordo-me com angústia do esforço imenso que minha mãe fazia para garantir as tais “roupas novas” nessa época do ano.

Sei que meus sentimentos com relação à cultura natalina estão temperados por esse cenário de escassez da minha infância, mas foi na vida adulta, por meio das vivências à quais tive acesso na universidade, que pude compreender melhor meu espírito anti-natalino, principalmente por identificar o quanto a cultura natalina mercantiliza as relações e contribui para perpetuar a meritocracia como valor socialmente compartilhado e referendado positivamente. Não se trata de invalidar as formas simbólicas de comemoração, porque uma coisa é o cultivo da celebração pela finalização de um ciclo que, simbolicamente, se fecha ao final de cada ano e a troca de afetos e, até mesmo, de presentes para coroar esse momento. Outra coisa é a divulgação massiva de uma ilusão que chega a cada criança, independentemente das condições em que se encontra, e a associação dessa ilusão ao julgamento moral de sua conduta ao longo do ano, contribuindo tanto para que inúmeras crianças se culpabilizem por não ter sido atendidas pelo tal “bom velhinho” que, segundo dizem, “atende a todos os pedidos das crianças que tiveram um bom comportamento”; quanto para que outras tantas crianças se vangloriem por ter merecido ser presenteadas nessa espécie de tribunal do comportamento infantil.

Em um país desigual como o Brasil, essa cultura natalina torna-se ainda mais cruel. Tenta-se amenizar o estrago desse delírio coletivo com campanhas de solidariedade como a dos correios, por exemplo. Sem deixar de reconhecer a importância de iniciativas como essa em um cenário em que não dá para garantir que nenhuma criança fique imune à sedução da “magia do natal”, é impossível não refletir a respeito dos efeitos que essas práticas podem produzir no desenvolvimento de crianças cujas expectativas, muitas vezes inatingíveis, são mobilizadas; bem como sobre os efeitos que tais práticas produzem para a visão de mundo dos adultos que passam a romantizar situações que deveriam mobilizar indignação. É o caso de um pedido como o do Nathanael de 5 anos que pediu ao Papai Noel, na cartinha enviada aos correios, “pão de milho com leite para tomar com café da manhã”, arrancando suspiros e mobilizando ações para que ele tome café da manhã, pelo menos nessa época do ano para deixar nossos corações natalinos batendo mais tranquilos. Em um sábado pela manhã vi um programa de TV em que crianças com menos de doze anos pediam ao papai noel coisas como a eliminação do coronavírus; pedido semelhante, encontra-se nas cartinhas enviadas aos correios por crianças de até 10 anos, entre as quais está um pedido de emprego para um pai. [1]

A comoção causada nos adultos em função do sentimento provocado por pedidos como esses pode ser associada ao que Àries (1981) [2] chamou de “paparicação”, base do sentimento relacionado com a ideia de infância, a partir do qual a criança é vista como ser ingênuo cuja graciosidade pode ajudar a aliviar tensões dos adultos. É isso que contribui para que, diante de três pedidos que clamam por um mínimo de dignidade, possamos aceitar e ficar comovidos com o fato de que uma criança receba um café da manhã como se fosse um presente raro, assim como nos emocionamos diante de dois pedidos fundados em distorções da realidade, aos quais acolhemos como os demais, mesmo sabendo que não há possibilidade concreta para entregar “presentes” como o desaparecimento de um vírus ou emprego para os pais, nem tampouco há qualquer preocupação em esclarecer para criança quanto aos fatores que tornam isso impossível, buscando impedir que ela associe seu comportamento ao fato de não ter tido seu pedido atendido.

Soma-se a isso as circunstâncias em que as crianças brasileiras se encontram, submetidas a um presidente que, ainda candidato, afirmou que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) deveria ser rasgado. Afirmação essa que tem se tornado cada dia mais coerente com suas atitudes como se pode ver na live em que ele faz insinuações de cunho sexual para uma menina de 10 anos [3], entre tantas outras situações nas quais o presidente ignora um documento que, há 30 anos, representa o reconhecimento institucional de que crianças e adolescentes devem ser tratados como sujeitos de direitos, extremamente necessário em um país em que a concretização do direito à infância, na vida de muitas crianças, ainda é tão ilusória quanto esses pedidos feitos ao papai noel.

Para que tenhamos uma dimensão da distância entre as mazelas da infância no Brasil e o acesso à “magia do natal” destacarei alguns dados relacionados a dois temas que por si só justificam o medo a que as nossas crianças vivem submetidas segundo dados de 2018 revelados por pesquisa feita pela UNICEF [4]: a violência sexual e a violência armada.

De acordo com o Atlas da Violência 2018, estima-se que ocorram em torno de 500 mil casos de estupro por ano no Brasil. Cerca de 70% das vítimas são crianças e adolescentes. Mais de 80% dos abusos ocorreram até os 14 anos de idade, principalmente entre 5 e 14 anos. As meninas estão em risco muito maior de sofrer violência sexual do que os meninos. Elas representam 85% das vítimas. E 51% são negras. [5]

Ampliam-se as formas de cometer esse tipo de crime com as novas tecnologias, situação que foi agravada pela pandemia:

A SaferNet (associação civil de direito privado, com atuação nacional, focada na promoção e defesa dos Direitos Humanos na Internet no Brasil) registrou um aumento de 108% nas denúncias de pornografia infantil durante a pandemia no País. Só em abril de 2020, foram 9.995 denúncias. [5]

A violência sexual contra crianças e adolescentes, pode trazer implicações que aprofundam suas sequelas, revitimizando vítimas já tão violentadas, como ocorre com relação aos casos de gravidez infantil que violenta e mata meninas cujo direito à interrupção da gravidez é adiado ou negado como ocorreu recentemente na Argentina [6], no caso em que a demora para autorizar o procedimento de interrupção da gravidez levou à necessidade de realizar uma cesárea em uma criança de 11 anos, colocando sua vida em risco. Não por acaso a mortalidade materna é uma das principais causas de morte de adolescentes e jovens nas Américas segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) [7].

Esse ano, no Brasil, vivemos situação semelhante em que uma criança foi chamada de assassina na frente do hospital para o qual foi levada para realização do procedimento de saúde que lhe é garantido por lei. Para piorar a situação das meninas brasileiras que ficarem gravidas devido à violência sexual, essa experiência horrível levou à formulação e aprovação da portaria 2822 [8], que se configura como um verdadeiro instrumento de torturar vítimas de estupro, induzindo-as a desistir de usufruir do direto de interromper a gravidez. Para mim é inevitável pensar que, muito provavelmente, aquelas pessoas que estavam lá na frente daquele hospital, cerceando um direito básico daquela criança, devem ter falado em papai Noel e presenteado as crianças com as quais têm vínculos afetivos, como se nunca tivessem atentado contra a dignidade de uma menina duplamente violentada.

E o que dizer dos riscos relacionados à violência armada? Esse ano, só no Rio de Janeiro, 22 crianças foram baleadas segundo a plataforma fogo cruzado [9]. É importante ressaltar que o cálculo está baseado no limite de idade de 12 anos, portanto não inclui João Pedro de 14 anos, baleado dentro da casa em que brincava com outras crianças, devido a uma operação policial [10]. Entre as 22 crianças de até 12 anos baleadas, as 8 que perderam a vida eram negras. O Douglas Enzo foi baleado e morreu durante sua festa de aniversário de 4 anos, já a Rayane morreu aos 10 anos baleada em uma festa junina...São Annas Carolinas, Kauãs, Ítalos, Emilys e Rebeccas entre outras crianças não identificadas que foram e continuarão sendo atingidas pela violência armada, assassinadas por armas cujo cano está voltado para pessoas pobres, faveladas, periféricas que são negras em sua maioria. Crianças atingidas por armas manuseadas por adultos, em muitos casos, os mesmos que ficam comovidos com cartinhas enviadas ao papai Noel e contribuem para incutir nas crianças com as quais convivem, a lógica meritocrática dos presentes natalinos cedidos pelo tribunal infantil para todas as crianças que tiverem bom comportamento.

E assim seguimos com nossos espíritos natalinos! Romantizando o inaceitável, nos encantamos com luzes piscantes e com pedidos infantis forjados na fome e na escassez em que vive a maioria das crianças. Hoje consigo notar que, ao invés de ficar indignada, eu sentia admiração pelo esforço que minha mãe fazia para não nos deixar passar o Natal sem roupa nova. E não há nada mais eficaz para oprimir as pessoas do que distorcer a realidade, desvirtuando, assim, as formas de perceber e sentir as experiências vivenciadas e os significados atribuídos a elas. Hoje tenho noites mais felizes por me encantar com esse sentimento potente que nasce da compreensão das raízes das causas que mantém crianças vitimizadas e, para mim, não há brilho mais lindo do que o olhar das pessoas caminham ao meu lado no mundo com a certeza de que, mesmo considerando os momentos mais felizes que possamos viver nessa sociedade, não haverá Natal capaz de suscitar felicidade em nenhum ser humano que se compare com a felicidade que sentiremos quando pudermos partilhá-la com toda a humanidade.


[1] https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2020/12/16/mais-de-970-cartinhas-foram-adotadas-na-campanha-do-papai-noel-dos-correios-no-acre.ghtml

[2] ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2 ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.

[3] https://noticias.uol.com.br/colunas/balaio-do-kotscho/2020/09/11/bolsonaro-viola-estatuto-da-crianca-em-live-com-youtuber-de-10-anos.htm

[4] https://www.brasil247.com/brasil/82-das-criancas-do-brasil-temem-a-violencia-diz-unicef

[5] https://www.folhape.com.br/noticias/pandemia-eleva-risco-de-abuso-a-criancas-e-adolescentes/141372/

[6] https://medium.com/revista-subjetiva/gravidez-infantil-brasil-e-argentina-e-a-luta-pelo-direito-ao-aborto-9ba91f9bd9d1

[7] https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5741:folha-informativa-mortalidade-materna&Itemid=820

[8] https://www.taisparanhos.com.br/2020/08/portaria-2822-mais-um-pacote-de.html

[9] https://www.metropoles.com/brasil/policia-br/rj-tem-22-criancas-baleadas-em-2020-duas-meninas-morreram-na-sexta-feira

[10] https://www.metropoles.com/brasil/menino-de-14-anos-morre-baleado-em-operacao-policial-no-rio-de-janeiro


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Célia Regina da Silva é psicóloga, professora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Atua como militante no coletivo feminista classista Ana Montenegro (Uberlândia) e na Unidade Classista (fração Andes). Compõe o grupo de colunistas da Clio Operária com publicações mensais

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