• Layana Sales

A Revolta de Stonewall: uma reação ou uma revolta violenta?


A Revolta de Stonewall: uma reação ou uma revolta violenta?

Pouco se sabe sobre a Revolta de Stonewall, mas todas as vezes em que se procura sobre ela, a primeira página do Google já afirma que foi uma revolta violenta. Contudo, como medir a reação dos oprimidos? Não seria muito complexo intitular uma revolta de tamanha importância para a história das pessoas LGBTQIA+ como violenta, já que a opressão que sofrem é uma violência em si?

A revolta teve seu início em 1969 com a pressão e violência policial sobre os LGBTs de Nova Iorque nos Estados Unidos. Esse episódio é tido como um marco para a comunidade LGBTQIA+ ocidental, por conta da sua repercussão e do seu significado. É necessário fazer-se sabido que os Estados Unidos dos anos 1960 passava por uma mudança cultural muito grande, tanto pelo efervescer feminista que colocava as questões do privado e do público em cheque, com o lema “o privado é político”. Também havia discussões sobre a sexualidade da mulher, sobre o ser feminino, sobre o ser mulher, a partir da obra de Simone de Beauvoir “O Segundo Sexo” (1969). Além disso, iniciava-se o movimento Hippie contra a guerra do Vietnã.

Entretanto, muitas continuidades conservadores, parte desse tempo, estavam em voga, uma delas era a proibição de entender-se com o gênero oposto ao sexo de nascimento. Nos Estados-Unidos de 1969, era proibido andar na rua com mais de três peças de roupas diferentes das do sexo no qual tivera nascido. Ademais, com o crescimento do conservadorismo no pós-guerra, as leis contra essa comunidade, tornaram-se cada vez mais rígidas. Sendo assim, na época aqui abordada, ter relações de cunho amoroso com pessoas do mesmo sexo era proibido por lei, assim como o “homossexualismo” (sic.)[1] era considerado doença e era tratado com eletrochoques, entre outras torturas.

Em Nova Iorque o contingente populacional crescia, então, indivíduos da comunidade LGBTQIA+ saiam de suas cidades natais e iam ao encontro de pessoas como eles em Nova Iorque. Por conseguinte, formaram-se comunidades e lugares de apoio para estes, sendo alguns em forma de bares e baladas.

Certamente, o contexto áspero e violento, em que viviam os LGBTQIA+ nova iorquinos, levou-os a procura de brechas para terem seus direitos alcançados, mesmo que clandestinamente, entre esses estava o direito ao lazer. Então, em 1967, funda-se o Stonewall Inn, por Fat Tony – filho de um chefe da máfia -, esse lugar se tornaria um ponto chave para a resistência LGBTQIA+ local.


Na década de 60, clubes destinados à comunidade gay funcionavam sob a fachada de um “bottle club”,para evitar as batidas policiais e facilitar o seu funcionamento, pois seria um clube privado. A proximidade com a máfia e os bares gays é explicada pelo conhecimento amplo de como burlar as regras, que permitia à comunidade gay gozar de espaços próprios (APOLINÁRIO et al, 2019).

Todavia, em 28 de junho de 1969, o grupo policial, liderado por Seymour Pine, quebrou as regras da boa vizinhança ao entrar em Stonewall Inn fora do horário de ronda, mesmo subornado pela máfia. A desculpa dada foi pelas bebidas ilegalmente vendidas, mas para Ann Bausan (2015 apud APOLINÁRIO et al, 2019) a motivação foi outra: Pine não pode provar o esquema de chantagens aos policiais, então invadiu-o por outro motivo, as bebidas alcóolicas ilegais (ressalto que em 1969 era proibido a venda de bebidas alcóolicas para a população LGBTQIA+).

Durante a invasão do bar, os clientes foram separados dos funcionários, como também das transexuais e Drag Queens. Ao liberarem os indivíduos presentes, pouco a pouco, juntou-se uma multidão a favor dos oprimidos, em frente ao Stonewall Inn. A confusão começou quando uma travesti agrediu um policial com uma bolsa, o mesmo empurrava-a com força para entrar na viatura, também uma mulher lésbica foi agredida ao resistir à prisão. Ao observarem as cenas, a multidão enfurecida atirou moedas, pedras, coquetéis molotovs, entre outros objetos em direção ao bar.

Na noite seguinte, assim como nos dias que se seguiram, a multidão voltou ao local e bradavam “Gay Power” (poder gay – livre tradução), “Equality for homosexuals” (igualdade para os homossexuais – livre tradução) e “Christopher Street belongs to the Queens” (a Rua Christopher pertence as Rainhas – alusão as Drag Queens – livre tradução). Esse primeiro protesto juntou mais de 2 mil pessoas e cerca de 300 policiais. Os protestos duraram toda a semana e se intensificaram no dois de julho, data em qual grupos de esquerda a favor da libertação da comunidade entraram, durante esse período a violência foi maior, tendo conflitos físicos e depredação do patrimônio.


A Mattachine Society, organização que surgiu na década de 1950 e era composta por parte da comunidade gay, organizou a “Marchon Stonewall” em julho de 1969. Desta iniciativa nasceu a Frente de Libertação Gay, com premissas de libertar os homossexuais da opressão e concretizar os direitos humanos para os homossexuais. Em novembro, a Aliança dos Ativistas Gays foi formada com o mesmo intento. Um ano depois dos protestos, foi feita uma marcha de Orgulho Gay, que comemoro tanto os protestos, quanto as conquistas. De acordo com Tiffany Nelson (2015), a Frente de Libertação Gay e a Aliança dos Ativistas Gays foram um sucesso porque além de unir diversos homossexuais e pessoas que apoiavam a causa, também buscaram unir grupos ao redor do país em torno de um mesmo propósito (APOLINÁRIO et al, 2019).

Compreendendo então o que foi a revolta de Stonewall e qual era a situação das pessoas LGBTQIA+ dos Estados-Unidos, reafirmo a máxima de Malcom X: “Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”. Tanto a revista Galileu, quanto a Wikipédia, os quais são grandes sites de acesso estudantil, colocam a revolta como “violenta”. Essa termologia acaba por intervir na importância da revolta, deixando-a com caráter errôneo ou até mesmo deslegitimando suas características. A população LGBTQIA+ era altamente perseguida e violentada na Nova Iorque de 1960, tendo seus direitos tolidos por leis conservadoras e por pessoas má intencionadas. Suas formas de resistências teriam que ser agressivas, pois sem essa violência, não haveria direitos.

Mariela Chauí, em “Ética e Subjetividade – Uma reflexão” para a Segunda Semana Social Brasileira “Brasil: Alternativas e Protagonistas”, ao falar da ética aborda a violência, ela aborda que em um lugar violento, não pode haver ética, pois a violência seria o contrário da ética. Contudo, venho desmistificar essa ocasião: a violência aqui não vinha da comunidade LGBT+, vinha do sistema opressor.

Chauí aborda sobre a tradição autoritária da sociedade brasileira, mas que cabe muito bem na estado-unidense:


“A classe dominante reserva para si o privilégio do exercício do poder. Assim, a sociedade (...) está estruturada sobre uma polarização entre o campo do privilégio e o campo da carência. Por isso, onde houver privilégios não há cidadania” (CHAUÍ, 1993, p. 18).

Apresentando essa afirmação, destaco: a Revolta de Stonewall não foi violenta, mas sim uma reação das comunidades subalternizadas e excluídas quanto à falta de ética e cidadania dos seus opressores – a classe dominante e privilegiada.


[1] Usei a palavra “homossexualismo” para não haver teor anacrônico no texto, assim como para expressar ironicamente o uso da palavra pelos contemporâneos de 1969, os quais colocavam sobre os LGBTQIA+ o status de doentes.


REFERÊNCIAS

APOLINÁRIO et al. As representações do movimento de Stonewall nos Estados Unidos (1969) -“Stonewall -A Luta Pelo Direito de Amar” (1995) e “Stonewall: Onde o Orgulho Começou” (2015). Epígrafe, São Paulo, v.7, n.7, p. 97-108, 2019.

SEMANA SOCIAL BRASILEIRA, n.2, 1993. Ética e Subjetividade – uma reflexão.

FERNANDES, Nathan. Revolta de Stonewall: tudo sobre o levante que deu início ao movimento LGBT+. Revista Galileu, 25 de junho de 2019. In: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2019/06/revolta-de-stonewall-tudo-sobre-o-levante-que-deu-inicio-ao-movimento-lgbt.html.

WIKIPÉDIA. Rebelião de Stonewall. In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rebeli%C3%A3o_de_Stonewall.


Layana Sales é formada em história pela PUC-Campinas, estuda sobre história social do trabalho, com ênfase nas questões dos direitos do trabalho das mulheres. Atualmente participa do Grupo de Estudos “História social e ditaduras” da UFRRJ. Também é militante na Marcha Mundial das Mulheres da Região Metropolitana de Campinas.

30 visualizações
apoie.png