• Ricardo Normanha

A prática revolucionária como exemplo de uma nova sociedade

Não se é marxista em determinadas situações. O marxista o é 24 horas por dia, 7 dias na semana. Vive constantemente sua prática militante revolucionária, sem descanso.


Imagem: Bruna Tonial


Estudar o marxismo-leninismo é procurar aprender a maneira de resolver cada problema da existência, a maneira de comportar-se em todas as situações, em relação aos outros e a si mesmo; é assimilar os princípios gerais do marxismo-leninismo, para aplicá-los criativamente às realidades de nosso país. (Da moralidade revolucionária, Ho Chi Min).

Há uma frase comumente atribuída a Mahatma Gandhi que diz, não necessariamente nestas palavras, mas, aproximadamente, com esse sentido: você deve ser a mudança que quer ver no mundo. Apesar do uso vulgar da frase, em geral associada a um nicho motivacional, empreendedor e de auto-ajuda, e apesar também de muitos problemas que podemos pontuar sobre o pensamento e a prática de Gandhi, esta frase é interessante para se pensar a prática cotidiana da militância da esquerda radical.

A questão da síntese dialética entre teoria e prática é um tema comum entre os marxistas. A importância de Lênin neste campo reside exatamente na compreensão da necessidade histórica deste movimento constante de alimentar a prática com a teoria e a teoria com a prática. Desta forma, o marxismo-leninismo não é apenas uma identidade assumida pelos militantes comunistas, mas uma prática revolucionária permanente. Não se é marxista em determinadas situações. O marxista o é 24 horas por dia, 7 dias na semana. Vive constantemente sua prática militante revolucionária, sem descanso.


Pandemia e militância


A despeito do aumento vertiginoso dos casos de contaminação e morte pelo coronavírus, há uma percepção geral do senso comum de que a pandemia da Covid-19 está acabando, e que a tão esperada chegada da vacina está indicando uma luz no fim do túnel depois de quase um ano vivenciando o gerenciamento do caos. Essa percepção não surge do nada. É uma construção narrativa e ideológica e, como tal, é construída a partir da ótica dominante. Em outras palavras, a narrativa sobre o momento atual da pandemia não condiz, necessariamente, com a realidade concreta dos fatos e tem como objetivo criar as condições sociais para que as demandas daqueles que detém o poder econômico e político sejam prontamente atendidas. Para compreender esse movimento, basta pensar em todo o esforço dos empresários da educação em forçar a reabertura das escolas; ou a pressão constante pela flexibilização das medidas de isolamento social.


O negacionismo de parte considerável do senso comum, e que encontra eco e respaldo na figura de Bolsonaro e sua corja de seguidores, alimenta ainda mais essa narrativa que minimiza a gravidade da pandemia e que obscurece o fato de que o número de casos e de óbitos é extremamente elevado, revelando o fato de que essa segunda onda está sendo ainda mais devastadora do que a primeira, considerando o relaxamento das medidas de prevenção, as mutações que tem originado novas cepas do vírus e a inexistência de um plano de vacinação efetivo.


O fato é que, a narrativa ideológica de que a pandemia está acabando contribui para que a população relaxe ainda mais as medidas de prevenção. O senso comum absorve esta narrativa sem qualquer exame crítico. O cenário torna-se ainda mais preocupante quando se percebe que esta assimilação da narrativa dominante contamina também aqueles que deveriam ser o contraponto crítico deste discurso negacionista.


Estamos vivendo um período de fundamental importância com demandas urgentes para as lutas sociais. Faz-se mais do que necessário estar nas ruas, dialogando com o povo, denunciando as atrocidades cometidas pela burguesia que controla o poder político e apresentando propostas de uma sociedade justa e igualitária. A gravidade dos ataques das classes dominantes sobre o povo exigem uma resposta firme e contundente que só terá respaldo popular se for construída no diálogo com o povo trabalhador que, a despeito da gravidade da pandemia, não tem o privilégio de fazer isolamento social. Os militantes devem estar onde o povo está, a todo instante.


No entanto, a militância da esquerda radical não pode se render ao discurso que minimiza a gravidade da pandemia e devem se apresentar ao povo como o contraponto crítico desta narrativa, denunciando e mostrando, a partir da prática, a gravidade do momento e o descaso absoluto dos governos na condução da crise sanitária. A esquerda radical deve ser, cotidianamente, aquilo que luta para construir. Sem vacilos nos cuidados com o uso da máscara e da higienização constante das mãos, evitar a aproximação excessiva com outras pessoas, não compartilhar microfones e megafones sem a devida higienização destes equipamentos e não promover aglomerações é o mínimo que se espera daqueles que estão na luta cotidiana contra a política genocida e negacionista promovida pelo bolsonarismo.

É nossa tarefa cotidiana colocar em prática aquilo que defendemos em nossos discursos, construir na realidade concreta as transformações que almejamos para a sociedade. A edificação de uma nova sociedade não é um projeto lançado num futuro indefinido; também não deve ser colocada como consequência de um possível processo revolucionário. Ao contrário, a revolução será o desdobramento das práticas de transformação do presente.

Não podemos nos igualar àqueles que, em nome do lucro e do poder, engrossam o discurso de negação da pandemia e colocam em risco a vida do povo. Nossa militância tem a responsabilidade histórica de se contrapor a esta gestão da desgraça e de colocar a vida do povo trabalhador em primeiro lugar. Esta é a prática revolucionária.

Ricardo Normanha é professor, sociólogo e pesquisador


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