• Clio Operária

A Onda Conservadora da Extrema Direita e sua Influência no Futebol

Robson Almeida*


Hoje vemos o futebol democratizado e acessível para todas as classes sociais, é um esporte símbolo do Brasil, virou uma modalidade das massas brasileiras, mas a história nos mostra que nem sempre foi dessa forma, ocorreram muitas revoltas para torná-lo mais diversificado em território brasileiro. O futebol chegou ao Brasil em 1894, o introdutor do esporte foi Charles W. Miller, filho de um industrial inglês, que após um ano de estudos na Inglaterra, trouxe a modalidade esportiva para o Brasil, ao contrário da cultura brasileira, o futebol em continente europeu era um esporte já praticado por classes de trabalhadores, popular entre os operários ingleses. A elite brasileira da época (principalmente da região sudeste, onde a economia era próspera), apropriou-se e colocou o novo esporte em um patamar de ‘diversão’. Através dos anos, clubes foram se formando, obviamente com o viés ideológico junto onde apenas homens da elite podiam praticar o esporte, não havendo negros nos times e sem dar espaço para times formados nas favelas e subúrbios. Devemos salientar que a escravidão foi abolida legalmente no Brasil em 1888, e a primeira partida de futebol em território brasileiro aconteceu em 1895, apenas uma diferença de sete anos da vergonhosa escravidão ter “acabado”. Podemos imaginar como o preto era tratado, toda a segregação racial ainda estava ávida.


No começo, o futebol foi uma modalidade de total discrepância de classe social, apenas homens da elite podiam pratica-lo e ter acesso. No começo dos anos 20, clubes como Flamengo, Fluminense, Bangu, América e Botafogo, não aceitavam jogadores negros nem mestiços. Mas o Vasco da Gama, clube do subúrbio do Rio de Janeiro, já tinha um pensamento progressista da situação. No Vasco, aceitavam-se jogadores negros, porém o clube foi rigorosamente alertado para que esses jogadores “de cor” não se destacassem ou criassem maiores problemas. A elite via com grande preocupação o preto pobre que tanto repudiava, tomando seu lugar de destaque no futebol.



“Time Clube de Regatas do Flamengo em 1912”. Fonte: https://cidadesportiva.files.wordpress.com/2011/06/flamengo-8.jpg

Nem o maior representante do futebol brasileiro ficou imune de atos racistas. Nascido de uma família pobre, Pelé, tricampeão de copas do mundo, sofreu durante sua carreira, foi perseguido dentro de campo, por suas habilidades, mas também sofreu preconceito por ser preto. O mesmo relata que nunca ligou para os xingamentos referente à sua cor de pele, pois isso sempre existiu, porém não se pode haver omissão nem ser passivo, perante esses acontecimentos nefastos.


Contudo, no Brasil, havia uma enorme segregação social e racial, o Estado não intervia nas questões sociais e na política, havia simpatia pelo então novo movimento denominado de fascismo que começou na Europa, mais precisamente na Itália, tal simpatia se proliferou nas camadas socais, principalmente na elite da época, isso afetou o futebol brasileiro. Foi no período dos anos 30, tendo ainda mais segregação e racismo por parte da sociedade.



“Imagem emblemática da copa do mundo de 1938, chamada de copa do fascismo, onde os jogadores italianos fazem a saudação romana, a mando de seu ditador Benito Mussolini, a Itália jogou de preto, pela primeira vez em sua história, representando os adeptos ao movimento dos camisas negras, uma violenta ferramenta militar política fascista.” Fonte: https://calciopedia.com.br/2019/04/fascismo-futebol-italiano.html
“Imagem emblemática da copa do mundo de 1938, chamada de copa do fascismo, onde os jogadores italianos fazem a saudação romana, a mando de seu ditador Benito Mussolini, a Itália jogou de preto, pela primeira vez em sua história, representando os adeptos ao movimento dos camisas negras, uma violenta ferramenta militar política fascista.” Fonte: https://calciopedia.com.br/2019/04/fascismo-futebol-italiano.html

Em 1950 havia um destaque na seleção brasileira, que iria disputar sua primeira copa do mundo em solo nacional, seu nome era Moacir Barbosa Nascimento. Casos de racismo explícito e perseguições aconteceram com o então goleiro da seleção vice-campeã da copa do mundo no Brasil. Foi duramente criticado pela mídia da época, por ter falhado no gol que deu o titulo ao Uruguai na final daquele fatídico torneio. Só que ele não foi criticado por seu rendimento dentro de campo e sim pela sua cor, sua suposta falha perpetuou através do tempo, até a sua morte em 2000. Ele se culpou por todos esses anos.“No Brasil, a pena máxima (de prisão) é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”,costumava dizer décadas depois do incidente.



“Imagem de Moacir Barbosa Nascimento, em 1948. Em seu auge pelo clube Vasco da Gama.” Fonte: http://www.museudapelada.com/resenha/barbosa

Casos como de Barbosa, tem haver com essa segregação racial, de ideologia da extrema-direita, que vem crescendo e está presente nos dias atuais e contaminando, influenciando o futebol através do mundo. Presenciamos mês após mês, casos de racismo ao redor do mundo, o mais fatídico que repercutiu na mídia foi em 2014 no Brasil, em uma partida do Grêmio contra a equipe do Santos. “Na noite de 28 de agosto daquele ano, o Tricolor enfrentava, na Arena, o Santos pelas oitavas de final da Copa do Brasil. Perdia por 2 a 0, mas o resultado seria o menor dos problemas. Em dado momento, o goleiro santista Aranha foi alvo de ofensas raciais proferidas por torcedores nas arquibancadas”. As câmeras flagraram uma torcedora que visivelmente chamava o jogador de “macaco”. A repercussão foi enorme, o caso foi parar nos tribunais e o clube acabou eliminado da competição. Vale ressaltar que injuria racial é crime.


Desde este episodio, de 2014 até 2019 os números de casos de racismo não pararam de crescer no Brasil, só em 2019 houve 59 casos registrados de racismo no futebol brasileiro. Há outro elemento citado com regularidade quando se levanta a questão do crescimento de casos de racismo no futebol brasileiro. O fator que seria responsável por impulsionar tantos episódios detestáveis tem a ver com o momento político do país e do mundo.


“Goleiro Aranha no fatídico dia que sofreu racismo por parte da torcida do Grêmio” Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/wp-content/uploads/2014/09/aranha.jpg

Na Europa, o crescimento de simpatizantes da extrema-direita cresceu assombrosamente e isso refletiu no esporte mais praticado no globo, são inúmeros casos de racismo que aconteceram e acontecem no continente europeu, podemos citar o caso do jogador Daniel Alves, em 2014 atuando pela equipe catalã, o Barcelona que enfrentava Villarreal pelo campeonato espanhol, enquanto cobrava um escanteio à torcida do Villarreal arremessou uma banana em direção a Daniel Alves, que o mesmo pego-a e em um ato simbólico, começou a comer a banana enquanto cobrava o escanteio. O vídeo desse ato repercutiu o mundo, claro que negativamente pelo racismo praticado pela torcida do Villarreal, que jogando uma banana no jogador, está insinuando que ele é um macaco, mas também pela atitude do Daniel Alves por não se intimidar perante a essa manifestação racista.



Fonte:https://s2.glbimg.com/vqdGxYrAbLCMhPrA7GlaJwEdV9w=/300x260/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2014/04/28/daniel-alves-banana-400x330.png

Há uma marginalização do preto no mundo sem precedentes, um racismo estruturado, no qual só pelo fato da pessoa ser preta ela perde seu direito de cidadania, é rebaixada e é considerada sub- humana, na visão de pessoas que sustentam esse fascínio da extrema-direita. Pregam a exclusão dos direitos de pessoas negras, além de serem perseguidos. Estamos vivenciando um momento tanto no Brasil como no mundo de uma politica conservadora e que tem velado seu lado extremista. Sim, hoje diversos países no mundo assumiram um lado fascista, isso reflete no esporte mais praticado pelas massas populares ao redor do planeta. Precisamos conscientizar todas as classes sócias e alertar, pois o futebol está voltando aos anos de segregação racial e de exclusão, se não houver resistência e luta, os anos sombrios podem voltar.


*Robson Almeida é Historiador, escritor e sempre ávido por transmitir conhecimento.

Referencias:

https://veja.abril.com.br/esporte/pele-temos-mais-informacao-e-ainda-assim-o-racismo-segue-acontecendo/

https://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,aranha-sofre-ofensas-racistas-de-gremistas-e-desabafa-doi-muito,1551235

https://esporte.ig.com.br/futebol/2014-04-27/daniel-alves-come-banana-atirada-contra-ele-em-jogo-do-barcelona-em-villarreal.html

https://universidadedofutebol.com.br/o-futebol-brasileiro-como-tudo-comecou/

Referencias bibliográficas:

Artigo: linguagem racista no futebol brasileiro — Carlos Alberto Figueiredo da Silva

Mário Filho — O negro no futebol brasileiro


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