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A morsa em Bolsonaro

Estamos em um momento dramático, sem dúvida, no pior surto brasileiro da pandemia global, enterrando quase dois mil corpos dia e colhendo os frutos da negligência e do projeto de não comprar antecipadamente as futuras vacinas. Caminha a passos de tartaruga a vacinação, que em pouco mais de um mês atingiu míseros 1,4% da população com as duas doses. O PIB despencou 4% se o medirmos em doar o PIB caiu cerca de 23%. A Crise sanitária, econômica, política e moral assola o território nacional. Ao mesmo tempo, o empresariado (burguesia) busca desfazer as animosidades e separatismos impostos pela pandemia, afinal o motivo chave do racha, se não pensarmos nos revanchismos políticos, foram amplamente superados com o horizonte da vacinação. Por um Lado: A burguesia tenta se reagrupar em um Bloco Burguês Único, em apoio ao bloco de reformas. Apertam institucionalmente Bolsonaro, lhe deram a câmara e o senado, mas não a maioria. Isso ele precisará negociar, e ceder. O que eles querem? Seu caráter Fascista. Ao vencer, o Bloco Fascista perdeu, no sentido de ser obrigado a abrir mão de seu próprio caráter e afastar a agitação do golpe de seu próprio horizonte. Alguns elementos que trazem este momento de recomposição do Bloco no Poder são o aceite de ações descentralizadas, antes inaceitáveis, como o Consórcio indigesto para compra da vacina Russa, Sputnik V. No mesmo sentido, ressurge a Federação Nacional de Prefeitos com um consórcio de mais de 1700 municípios também para compra de vacinas, após aberta derrota nas eleições municipais por Bolsonaro. No mesmo sentido, a pressão para adestrar o Bloco Fascista e o capacitar para reagrupar o Bloco Único Burguês conta com intervenções cada vez mais ousadas do órgão representante máximo da institucionalidade burguesa, o Supremo Tribunal Federal, o “Caso Daniel” preso como agitador golpista e abandonado pelo parlamento diz muito sobre este momento, onde se busca criar um bolsonarismo sem bolsonaro, ou seja, isolar estes grupos radicalizados do poder. Daniel foi o sinal de um novo padrão na luta intra burguesa. Ao mesmo tempo as patronais buscam as reformas, especialmente a FIESP, Fecomercio e Febraban, sedentas pelas reformas Administrativa e Tributária. Conquistaram, como sinal inicial deste novo bloco a autonomia do Banco Central, aprovada a toque de caixa desagradando alguns setores que esperavam mais. Mudou-se em um grande cavalo de pau o caminho de Estado brasileiro, a palavra de ordem é: Vacinar Sim! Reformar Também! Por outro Lado: O Bloco da Frente Ampla implodiu diante da derrota acachapante na Câmara e lhe restou, por mais que o discurso seja de frente ampla, praticar e se agrupar no Bloco de Frente Única (ou isolar-se). A Frente Única tem marcado carreatas com frequência em defesa da vacinação de todos, além de tentar greves sanitárias (por vezes fragilizadas). Como, por exemplo, as mobilizações, em número muito reduzido, da educação - em autopreservação e dos estudantes- e dos petroleiros - em defesa da Petrobras pública e por medidas de proteção contra o coronavírus. O centro da Tática aponta para a palavra de ordem: vacina para todos, Já! Porém de onde não se espera nada… os caminhoneiros, mesmo diante de lideranças fascistizadas pararam contra a carestia, especialmente dos combustíveis, a greve - menor que a esperada - foi capaz de algo que há muito tempo os trabalhadores em movimento não faziam: derrubaram um ente forte do governo, o presidente da Petrobras. Ao que parece, a confiança foi momentaneamente reconstituída a ponto de fazerem um piquete contra a quarentena em São Paulo, esta semana, com a alta de casos de contaminação e mortes pela Covid-19. A ação dos caminhoneiros mostram um caminho para toda a Frente Única: primeiro a atenção e primazia de disputar a consciência dos setores de trabalhadores - especialmente os estratégicos - que ainda apoiam Bolsonaro. Estes terão de se debater diante da realidade concreta para manter grandes bases entre a carestia e a literal ameaça da vida trazida pelo bloco no poder. Segundo, alertou a fragilidade do próprio bloco burguês em resistir diante das categorias estratégicas. Devemos lembrar brevemente o longo caminho de desarme que nos trouxe até este momento: saltamos da palavra de ordem Greve Geral, com a capacidade de causar milhões de prejuízo à burguesia e contando apenas com nossas forças, para o desarmante Diretas Já - que nos desarticulou, ou seja, dividiu o movimento sindical do popular e desmobilizou ambos; depois saltamos para o recuado Lula Livre; após sua libertação, o incompleto Fora Bolsonaro (que isenta Mourão) nunca alcançou a dimensão necessária, imediatamente substituída pela Vacina Já, que não ecoa na sociedade. Vale lembrar do poderoso EleNão, maior movimentação popular do período. A Surpresa: Pois, falando em Lula Livre, a burocracia burguesa apresentou mais uma peça, acreditamos que compondo este verdadeiro adestramento em fogo do fascimo, a prensagem da morsa burguesa: devolveu os direitos políticos para Lula. Pensando na pequena política, livrando Moro e o Judiciário de encarar de frente toda a afronta legal do processo Lula, com os vazamentos recentes que comprovam o conluio contra a social-democracia. O Leão de papel foi colocado à mesa de jogo, há aqui algumas possibilidades, que jogam em combinado: - O gestor da terra arrasada: a burguesia mostra ao governo que não está dobrando a aposta, ou seja, reabilita velhos aliados para o pleito e desenha novas saídas pós reformas. Lembremos que Lula cumpriu muito bem seu papel. Após solto não foi o esperado articulador dos trabalhadores, desta vez nem mesmo de apassivador. Lembremos que ele mesmo se propõe a ser o “fio condutor da paz nacional”. Um ótimo gestor da terra arrasada. Isso empurra Bolsonaro-Mourão para mais dentro do Bloco burguês (Liberal) se quiserem a manutenção de seu apoio. - O desarme das ruas: As reformas e eleições de 2022 se misturaram em calendário, sem dúvida. Uma combinação certa de aperto eleitoral e reformas pode desarmar e especialmente o Partido dos Trabalhadores, pela sua já tradicional escolha de privilegiar as lutas institucionais e não as mobilizações populares e sindicais. O Lula ou Nada de 2018 tende a retornar, solapando a movimentação real dos trabalhadores. - Cálculo Eleitoral e recuo programático: São Paulo e Belém deram sinais claros nas eleições municipais. Foram ações de força de programas mais avançados contra o já combalido Projeto Democrático Popular. O Socialismo democrático do Psol ganha espaço e dá espaço às propostas de Poder Popular que o cercam. A derrota petista em todas as capitais também mostra seu encolhimento. Garantir o recuo programático eleitoral com a figura de Lula estanca preventivamente problemas futuros e ressuscita ânimos fascistas em todo país, alardeando um de seus centros ideológicos: O anti lulismo-petismo! O contraponto perfeito. Eleitoralmente Lula pode ser menos perigoso. Tudo isso joga de forma combinada e condiciona o movimento de classe hoje. Por fim, devemos perceber a morsa sobre o Bolsonarismo hoje, em busca da construção de um Bloco Único Burguês, de caráter neoliberal e, acredito, não temer o golpe (apesar de nunca nos desarmar para tal, afinal o alto escalão da burocracia militar chega a falar abertamente da ação). Apertando-o! A ação abertamente burguesa de um lado e as ruas do outro! Isso acompanha uma reflexão, o clássico “Que Fazer?” ou, qual palavra adotar: Em breve o Lula ou Nada ressurgirá e restará para nós encampa-lo ou construir novas alternativas. Acreditamos que o “Vacina para todos, já!” ainda será válida por alguns meses, mas precisará ser habilmente substituída por uma ampla e forte ação defensiva. A história recente nos mostra que nossa arma mais nociva é a Greve Geral e a inserção nos setores estratégicos. A defesa da Vacinação, se quisermos nos safar das reformas, deve acompanhar um amplo trabalho dentre as categorias de produção e circulação de mercadoria. O trabalho exige celeridade, então, etapas podem ser queimadas, o diálogo deve ser franco e de peito aberto com estas categorias. Convencê-las é literalmente uma tarefa de vida e morte. Esta geração de militantes nunca fez trabalhos deste tipo e poderá errar, mas também irá acertar, e seus acertos serão uma possibilidade de vitória nesta tempestade. Ao movimento popular cabe apostar em uma estética e palavras de ordem abertamente antifascistas e retomar o acerto tático no início de 2020. Na morsa em Bolsonaro, quem sairá apertado é o trabalhador!

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