• marciopauloas96

A história cobra o colonialismo


Imagem retirada do site do "Museu do Quai Branly" na França

O Burundi, país que fica na região dos grandes lagos africanos, através de uma queixa formal requer de seus colonizadores, Alemanha e Bélgica 36 bilhões de euros, que por sua vez relutam pelos pagamentos. Através de um grupo de estudos com historiadores e economistas, Burundi pede a repatriação não só em dinheiro, mas também para que objetos que foram roubados. sejam repatriados; uma luta contra um racismo sistêmico, por meio da colonização que perdurou de 1890-1962.


O grupo de pesquisa não leva só em conta os trabalhos forçados e a desumanização da sociedade, também enxergam problemas nas estruturas de formação do país como nação independente devido ao decreto de 1931 que classificou as populações locais em três grupos étnicos e é a semente da guerra civil do Burundi que iniciou em 1993 e teve um final em 2005, e que atrapalhou o desenvolvimento do país, que só conquistou a sua independência em 1962.


Burundi foi comandado pela Alemanha até a primeira guerra mundial, quando os alemães perderam força e territórios e acabaram passando o território para os belgas em 1917. O domínio belga foi muito mais ativo e são os belgas que categorizam as populações locais fazendo com que houvesse uma clivagem étnica e social, assim como aconteceu em Ruanda, desencadeando os conflitos locais e o genocídio de Ruanda (1994) além das guerras no Congo.


Nos últimos 10 anos , houve apenas retratações simbólicas da herança colonial pelos europeus, de uma forma apelativa e simbólica ao fazer devoluções de itens que estavam em seus museus, que foram roubados da África, uma espada restituída ao Senegal, uma bíblia e uma chibata à Namíbia, e alguns pedidos de desculpas como do Reino Unido, Bélgica e Itália e apenas uma indenização no valor de 144 milhões de reais ao povo Mau – Mau no Quênia dos londrinos, apenas passos curtos e metódicos para as devoluções.


Os Londrinos só fizeram as devoluções devido a ordem judicial em 2013 pelos abusos coloniais e foram obrigados a indenizar 5.000 sobreviventes quenianos, daí surge o pedido de perdão. A França, que por sua vez continua exercendo influência nos territórios africanos com grande força militar, econômica e política, anunciou apenas em 2018 que iniciaria a devolução de 90.000 obras de arte africanas expostas nos seus museus.


Alemanha e Bélgica são antigas potências coloniais e as que são mais inconsequentes com a história. A Alemanha que cometeu o primeiro genocídio na Namíbia, ignorou por décadas a responsabilidade de seu colonialismo o e nunca aceitou pedir o perdão. A Bélgica que com seu ex-soberano Leopoldo II cometeu um dos maiores genocídios da história africana, quando matou milhões de congoleses, só oficializou o pedido de perdão após um processo de revisão histórica e nada mais fez. Mesmo com o colonialismo e Leopoldo II sendo enxotados do Congo e de regiões próximas, ainda persiste na Bélgica, imagens e memórias desse período brutal, mostrando que o colonialismo ainda vive.



Caso em algum tempo os colonizadores devolverem aos países de origem os itens roubados, grande parte de museus e acervos europeus serão esvaziados, devido que em grande parte existirem peças levadas para a Europa de países como Ruanda, República Democrática do Congo, Burundi e Tunísia. Angola, por exemplo, reivindica de Portugal algumas de suas esculturas. Para além da África, a Colômbia requer a devolução do tesouro Quimbaya, o México que pede à Áustria o Cocar de Moctezuma que foi parar no museu de Viena.

Quanto mais os países africanos e sul-americanos entrarem com pedidos formais de devoluções de itens e de reparação histórica, cada vez mais países colonizados começam a entender e esmiuçar as suas verdadeiras raízes, e com isso, grandes intelectuais nascem e discorrem sobre a sua verdadeira identidade - a Europa retendo os itens de outros países só mostra que as peças foram extraídas através de violência colonial.


Diyabanza pede para que os museus franceses devolvam as artes roubadas pela França, reeditando uma cena que vimos no cinema com o vilão do filme Pantera Negra, Killmonger, exigindo que artefatos sejam devolvidos para a sua origem e saiam da Europa. Dessa vez, de forma real, Diyabanza fez o mesmo e foi multado em 1.000 Euros em sentença da qual proferiu a seguinte frase "Este é um protesto contra a era colonial. Estamos a levar esta escultura para casa". [1]


A arte da África precisa necessariamente retornar a sua origem, a questão é quando o colonialismo deixará de sobrevoar as terras africanas? Essa é uma questão que diversos técnicos das áreas de História e Museologia discutem as formas de como devem ser feitas, porém a discussão não passa da academia. Infelizmente poucas ações são tomadas por países europeus, a ponto de um país do tamanho do Burundi ter que solicitar através de seus meios legais a sua reparação histórica, ou Diyabanza que é um ativista congolês, quando tenta com as próprias mãos fazer a reparação que as potências europeias não fazem.


Até quando vamos esperar por ações de países que colonizaram e fizeram do continente africano um espaço de exploração, os que se levantam contra aqueles que tem o seu papel silenciado, como Thomas Sankara, Patrice Lumumba, e tantos outros que fizeram História com suas vozes e ações. A África necessita daquilo que lhe pertence.



Notas:

[1]https://www.dw.com/pt-002/ativista-luta-pelo-retorno-de-arte-roubada-de-%C3%A1frica/av-55357693




Bibliografia

https://www.dw.com/pt-002/quando-a-europa-ir%C3%A1-restituir-artefactos-roubados-%C3%A0-%C3%A1frica/a-46425262

https://www.aljazeera.com/features/2020/11/11/emery-mwazulu-diyabanza


https://brasil.elpais.com/internacional/2020-09-07/a-europa-reluta-em-indenizar-a-africa-pela-colonizacao.html


https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/08/28/burundi-quer-compensacao-de-alemanha-e-belgica-por-crimes-coloniais.htm




Márcio Paulo é historiador, pós graduado em Filosofia e graduando em Ciências sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul, e colunista da revista Clio Operária.

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