• Clio Operária

A Grande Greve de 1917

Rafael Lopes*


É notório para quase todo paulistano a tradição do bairro da Mooca. Mas poucos sabem do seu histórico de luta operária. Durante o Século XX, São Paulo intensificou seu processo de industrialização. Foi nesse período que o operariado paulistano se torna conhecido em todo o território nacional, com sua intensiva luta por condições humanas de vida e de trabalho. Destacaremos nesse artigo a Greve de 1917.


No século XIX o Brasil era um pais sem indústria, muito devido ao domínio do comercio internacional pela Inglaterra, que impedia a industrialização do Brasil. Porém a proibição do tráfico internacional de escravos e o fim da escravidão no Brasil em 1888, forneceram alguns elementos que facilitaram na industrialização das terras brasileiras. Assim, diversos fazendeiros aplicaram seu dinheiro na compra de maquinas, surgindo assim as fabricas de tecido e a industrialização de alimentos.[1] Estava concentrado no sudeste — além das principais fabricas de café — a maioria das sedes dos bancos onde os ganhos da produção do pais eram depositados, logo, a região detém o capital necessário para construir toda a infraestrutura necessária para garantir o funcionamento das maquinas. Faltava apenas mais um recurso: a mão de obra. Esta, foi desde de ex-escravos á camponeses e imigrantes, primariamente europeus.

Entretanto, voltando a Mooca, com a grande onda de imigração, majoritariamente italiana, porém não única, o bairro passou a ter suas atuais características moldadas pelos imigrantes que vieram em busca de refúgio, trabalho e de um recomeço devido à crise italiana causada por sua unificação. Os fazendeiros donos do café recrutavam essa mão de obra estrangeira abundante; isso também era devido à teorias higienistas da época que buscavam branquear a população brasileira. Cerca de 5 milhões imigrantes vieram para terras brasileiras no século passado, intensificadas também pelo Decreto nº 164, de 17 de Janeiro de 1890 que facilitava a criação de sociedades anônimas e a criação de comércios, medida essa que daria frutos apenas décadas depois. Já em São Paulo, nesse mesmo período, houve um surto de urbanização, onde a capital vai abrigar cerca de 200 mil imigrantes, majoritariamente italianos. A capital cresceu cerca de 168% entre 1890 e 1900 e 141% entre 1900 e 1920.[2] Outro fato importante é que esses imigrantes vieram para São Paulo, em sua maioria, para trabalhar como operários; em 1910 estipula-se cerca de 50 000 operários no Estado de São Paulo, destes, apenas 10% eram brasileiros. Na capital dos 7 962 operários, 4 999 são imigrantes, de sua maioria esmagadora italianos.[3]


Assim, a procura por habitações aumentou drasticamente, atraindo diversos investidores, de profissionais liberais à industriais, fazendeiros, herdeiros, enfim, diversos capitalistas levaram seu dinheiro para a Capital, construindo casas para aluguel, muitas vezes em formato de vilas. Essas vilas diferenciam-se quando são construídas pelos donos na produção industrial de suas regiões — estas serviam como moradia para o trabalhador, tendo o aluguel descontado de seu salário — tornando-as assim vilas operarias.


A casa ofertada ao trabalhador passa interferir nas relações de produção. Ela por ter seu aluguel descontado do salário do operário, tem além do valor de uso, um valor de troca. Mas qual a interferência dessa relação de operário e patrão na vida cotidiana?

As condições de trabalho dos imigrante no Brasil no final do século XIX e começo do século XX foram de caráter exploratório ou até semi-escravista. Além de jornadas de trabalho por horas exaustivas dos adultos, diversas crianças, que segundo relatos sua idade partia dos 5 anos, trabalhavam nas fábricas. Toda essa exploração vai gerar a resistência. Os imigrantes, dentre outros motivos, vieram para resolver a falta de experiência do brasileiro na produção industrial, porém, além da experiência de trabalho, os imigrantes também trouxeram sua experiência de luta. Guiados pelos imigrantes, os trabalhadores começam a se organizar contra a exploração do capital, surgindo assim, no final do século XIX, os sindicatos. A luta sindicalista vinda da Europa tinha marcas socialistas e anarquistas, sendo esse último mais marcante. O principal meio de luta dos trabalhadores vão ser as greves, que surgem a partir de 1880.[4]


Trançando uma ordem cronológica da criação das primeiras centrais de sindicatos e congressos operários, em 1905 é criada a FOSP (Federação Operária de São Paulo); em 1906, no Rio de Janeiro, ocorre o 1º Congresso Operário Brasileiro, que definiu diversos objetivos de luta, incluindo a criação do COB (Confederação Operária Brasileira); em 1913 a COB organiza o 2º Congresso Operário Brasileiro; e em 1915 surge o Comitê de Defesa Proletária, que vai liderar o grande marco da luta operária no bairro da Mooca (e depois em toda São Paulo): a Greve de 1917.

Durante o período ocorria a Primeira Guerra Mundial (ou como era conhecida na época, a Grande Guerra) e diversas crises afetaram a vida do trabalhador brasileiro. Um exemplo é a falta de alimentos, que gerou o aumento dos preços da pouca comida que restava nas prateleiras, levando a um grande aumento no custo de vida.


No dia 2 de junho, ocorre uma reunião na União dos Operários de Fábricas de Tecidos na Liga dos Operários da Mooca, onde devido ao desespero, decidiu-se fazer uma reivindicação de 25% de aumento para os trabalhadores do Cotonifício Crespi.[5] Reivindicação esta que foi recusada pelo Rodolfo Crespi.


O Cotonifício Crespi foi uma grande empresa de fiação e tecelagem de algodão. Trabalhavam mais de 2000 pessoas por lá, indo de homens á mulheres e crianças. Devido as contradições inerentes entre os interesses dos patrões e os dos funcionários, o local é centro de vários confrontos. Além da recusa a reivindicação de aumento salarial anterior, em 9 de junho, os Crespi decidem prolongar o trabalho noturno e os trabalhadores não aceitam, e para além, reivindicam um aumento de 15 a 20% no seu salário. Logo em seguida, uma seção da fábrica com 400 funcionários entra em greve. Crespi paralisa totalmente a fábrica, visando assim forçar a volta dos grevistas ao trabalho. Porém, os trabalhadores resistem e continuam paralisados.

No dia 26 de junho, no bairro do Ipiranga, os trabalhadores da Estamparia Ipiranga, que pertencia aos árabes da família Nami Jafet, entram em greve com seus 1600 trabalhadores, com reivindicações parecidas com as dos trabalhadores do Cotonifício Crespi. Após 10 dias de greve, os árabes cedem as reivindicações dos trabalhadores.


Isso sem duvidas motiva os grevistas da Mooca, porém os Crespi continuam sem ceder. A pauta dos grevistas aumenta, eles agora exigem a abolição das multas, a regulamentação do trabalho das mulheres e dos menores, uma mudança do regimento interno da fábrica e o fim da contribuição pró-pátria (durante a Primeira Guerra, diversos burgueses oriundos de regiões em guerra na Europa, enviavam remessas de dinheiro para seus países). Começam as manifestações, passeatas e os comícios no centro da cidade. Assim, Crespi cede e concorda com o aumento de 10 a 20%, porém com o acréscimo da demissão do elemento grevista. Os trabalhadores não aceitam. Fora do ramo têxtil, em 7 de julho, ainda na Mooca, a greve alcança a grande fábrica da Antárctica, essa com mais de 1000 trabalhadores.


A Liga de Operários da Mooca teve grande destaque nas greves desencadeadas, pois com cerca de 600 membros, articulava e reunia os trabalhadores.


As greves continuam e assim começam os grandes choques com as forças repressivas do Estado. A Fábrica da Mariângela, no Brás, era uma das diversas fabricas que estavam em greve. Os trabalhadores da Mooca, se deslocam então para o bairro do Brás em passeata, concentrando-se na frente da fábrica, nisso começa o confronto com a polícia. O Brás vira um campo de guerra, os trabalhadores são atacados a tiros. No confronto, além de diversos feridos, morre o sapateiro Antônio J. Martinez. O sapateiro espanhol vira um símbolo de luta entre os manifestantes. No momento, cerca de 35 empresas estavam de greve, totalizando 15 mil operários paralisados. Houve grande comoção e uma multidão de trabalhadores foram ao enterro de Martinez. Durante a movimentação em direção ao cemitério, a polícia parou em diversas vezes os trabalhadores. Há relatos que em cada parada, alguns trabalhadores subiam em caixotes e começavam uma espécie de comício, exaltando os teóricos anarquistas europeus (Kropotkin, Bakunin, Malatesta, dentre outros). Logo após o enterro, a Avenida Rachel Pestana é totalmente tomada pelos grevistas, onde ocorre um saque a um carrinho de pão, o que serve de incentivo para que outros saques ocorram.


Dias depois a greve já é geral. O Comitê de Defesa Proletária unifica a pauta de reivindicações, que são: liberdade aos grevistas presos, o respeito ao direito de associação dos trabalhadores, garantia de trabalho aos grevistas, abolição do trabalho de menores de 14 anos e abolição do trabalho noturno aos menores de 18 anos, aumento de 35% dos salários até 5000 réis e de 25% aos superiores, a garantia do pagamento quinzenal com no máximo 5 dias de atraso, trabalho permanente aos operários, jornada de 8 horas de trabalho, e por fim, aumento de 50% de todo o trabalho extraordinário.


Em 15 de julho o acordo é firmado, com boa parte das reivindicações aceitas. Os patrões prometem a garantia de resolver o problema do trabalho infantil, anistia aos presos e nenhuma prisão pela justificativa de greve. No dia 16 os jornais publicam o acordo e no dia 17 ocorre diversos comícios na Sé e na Mooca. A greve é tida com uma grande vitória para a classe trabalhadora e aos poucos os trabalhadores voltam ao trabalho.

Para que o movimento não motivassem mais greves, a burguesia junto ao Estado, prendeu diversos líderes após a conclusão da greve, entre eles Edgard Leuenroth, que ficou preso por 6 meses. Os próximos anos são de mais repressão aos trabalhadores. De 1918 até 1920 o movimento operário ferve, tomando ainda maiores proporções. Em 1922, surge o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e devido ao sucesso na luta operária internacional do comunismo (Revolução Russa de 1917, liderada pelos bolcheviques) os anarquistas perdem seu espaço na luta operária. Em 1927 os anarquistas ressurgem no anarco-sindicalismo, porém com a tomada do poder por Getúlio Vargas em 1930 e a expansão dos ideais fascistas europeus no Brasil, a luta anarquista, socialista e comunista entre os trabalhadores perde suas forças temporariamente.


*Rafael Lopes é historiador e educador popular na Rede Emancipa.


Referencias:


BLAY, Eva Alterman. Eu não tenho onde morar: Vilas operárias na cidade de São Paulo. São Paulo: Nobel, 1985.


CARONE, Edgar. A República Velha: Instituições e Classes Sociais. 2. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972.


LEUENROTH, Edgard. O Movimento Operário: A Greve de 1917. São Paulo: Centro de Cultura Social, 2016.


ROSSI, Waldemar; GERAB, William Jorge. Para entender os sindicatos no Brasil: uma visão classista. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2009.


[1] Rossi, Gerab, pag 22


[2] Blay, pag 10


[3] Carone, pag 191


[4] Há registro de greves antes da era industrial, ver AÇÃO CATOLICA OPERÁRIA (ACO) História da classe operaria no Brasil. (6 cadernos)


[5] Leuenroth, pag 76.

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