• Clio Operária

A dor como moeda de troca da mídia sensacionalista

Maria Luisa Lima*


Na última terça-feira, dia 24 de Setembro [texto de 24/09/2019], acordei e fui tomar café na frente da televisão, coisa rara, uma vez que na correria de sempre quase não sei o que é tomar café parada. Liguei a televisão que sintonizada na Globo, passava o programa Encontro com Fátima Bernardes onde li no rodapé a descrição do quadro que acontecia no momento: “Exclusivo: Pais de Ágatha falam pela primeira vez”. Como descrito, os convidados principais eram o pai e a mãe da menina Ágatha, morta aos 8 anos por policiais militares após ser baleada no Complexo do Alemão, apenas quatro dias antes da data da entrevista dada por seus pais.


Sentados no sofá estavam o pai de Ágatha, um pouco mais afastado e quieto, e a mãe da menina um pouco mais próxima da entrevistadora, que respondia suas perguntas e falava sobre o cotidiano onde moravam, onde chuvas de bala se tornaram comuns e sem hora pra começar ou acabar. Ela conta sobre o medo que a filha sentia quando começavam as operações e sobre as vezes em que passaram a manhã dentro do box do banheiro por considerarem o lugar mais seguro da casa durante esses momentos. Os relatos da mãe de Ágahta são tão pesados quanto o estado em que ela se encontra, vivendo o luto da perda é nítido o desespero da mesma que em estado de choque clama pela vida de sua filha em tom e gestos desesperados, sem fixar o olhar em ninguém presente no programa durante todo o tempo em que consegui assistir, parecendo alheia a tudo ao redor. Era entre 11h e 11h30 da manhã, e dez minutos foram o suficiente pra que eu desligasse a televisão com a sensação latente de que havia algo de errado naquilo, mesmo não conseguindo identificar de imediato o que era, e tenho pensado nisso desde então.


Me pus a refletir sobre como a dor de uma família inteira pode entrar na casa de milhões de pessoas travestida de atração: qual o mecanismo capaz de sustentar um sujeito em frente à televisão assistindo durante sua manhã à uma mulher enlutada, clamando pela vida que fora roubada de sua filha pelo Estado? E seria então esse gosto popular pela tragédia o suficiente para legitimar o direito de uma emissora de televisão em expor o trauma e o luto dessa mesma família em rede nacional? A Globo, ao travestir tragédia em atração, promove uma entrevista sensacionalista explorando a morte de uma criança negra e o sofrimento de seus pais dias depois da perda em troca da exclusividade da informação e do lucro advindo da audiência. É importante lembrar, porém, que essa é a mesma emissora que vende representatividade e empoderamento surfando na onda do ganho de voz dos movimentos sociais, fidelizando inúmeros telespectadores por passar a imagem de quem está nadando contra o conservadorismo, entretanto com o mesmo objetivo que a levou à realização da entrevista desumana no “Encontro com Fátima Bernardes” dia 24: lucro. Acontece que é necessário falar sobre o Estado brasileiro que mata indiscriminadamente todos os dias em nome da guerra às drogas, é necessário que não nos esqueçamos da Ágatha, do Miguel e de tantas outras crianças que tiveram a vida ceifada pelo Estado, contudo chocar e comover através do sensacionalismo não altera a realidade mas sim nos nega o direito de chorar nossos mortos. A mídia só terá contribuição efetiva e legítima na alteração desse quadro quando promover a reflexão e a crítica acerca do sistema responsável por essas mortes.


*Maria Luisa é estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).

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