• Ricardo Normanha

A disputa de hegemonia com os pés no chão

Atualizado: Abr 8

(...) a construção de uma contra-hegemonia que busque organizar o povo e criar as bases para a transformação radical da sociedade passa, necessariamente, pelo trabalho de base das organizações de esquerda atuando diretamente nos territórios onde o povo está.


Foto: MTST


Desde o início do ano, temos visto em diversas mídias de esquerda iniciativas que apontam para uma perspectiva otimista para o futuro da atuação da esquerda e de seu trabalho de base e disputa de hegemonia na classe trabalhadora. Em Março, o MTST inaugurou diversas Cozinhas Solidárias em diversas cidades do país. Em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, foi inaugurado o primeiro Centro Socialista, fruto da iniciativa do professor Alysson Mascaro e do Deputado Federal Glauber Braga. Em São Paulo, na região central, a Casa de Referência Laudelina de Campos Melo, iniciativa do Movimento de Mulheres Olga Benário, tem a proposta de servir como ponto de acolhida e residência para mulheres vítimas de violência. Iniciativas anteriores seguem propostas semelhantes, como por exemplo, as Brigadas Populares que, em diversas cidades do país, criam e mantêm Comunas - espaços de organização política e social do povo - nos territórios onde atuam, como o espaço Olaria Cultural em São Sebastião, no Distrito Federal. A Rede Emancipa de cursinhos populares tem unidades de atuação em mais de 20 cidades espalhadas por sete estados do Brasil.


Essas e outras iniciativas apontam para a mesma direção: a construção de uma contra-hegemonia que busque organizar o povo e criar as bases para a transformação radical da sociedade passa, necessariamente, pelo trabalho de base das organizações de esquerda, sobretudo daquelas de caráter socialista e radical, atuando diretamente nos territórios onde o povo está. E, ao contrário de décadas atrás, quando o contato com a classe trabalhadora se dava fundamentalmente em seu local de trabalho, por meio da atuação dos sindicatos.


Neoliberalismo e as metamorfoses do trabalho


As profundas transformações no mundo do trabalho nas últimas décadas têm refletido diretamente na capacidade de organização da classe trabalhadora, sobretudo quando nos referimos à ação sindical. A década de 1990 foi marcada pela grande ofensiva neoliberal no mundo todo, especialmente nos países periféricos, como os da América Latina. No Brasil, o neoliberalismo se tornou política de Estado já no breve governo Collor, mas se intensificou, sobretudo nas gestões tucanas de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Esta ofensiva neoliberal, no mundo do trabalho, se traduz na desregulamentação das atividades de trabalho, na flexibilização da legislação trabalhista, no desemprego crescente e no crescimento de atividades de trabalho precárias.


Estas novas configurações do mundo do trabalho fizeram com que a representação e a organização dos trabalhadores por meio dos sindicatos ficassem cada vez mais fragilizadas. Uma nova classe de trabalhadores precários, sem vínculo de trabalho, autônomos mas sob o domínio do capital, desponta no cenário mundial. Na periferia do sistema, estas novas configurações da classe trabalhadora são ainda mais latentes. Por aqui, o desmonte das parcas estruturas de bem-estar social e a destruição dos direitos trabalhistas e previdenciários das camadas mais pobres da sociedade associados à superexploração do trabalho e à transferência de valor da periferia para o centro do capitalismo criam uma massa de trabalhadores cujos únicos vínculos mais estáveis são construídos nos territórios onde habitam, em geral, nas periferias das grandes cidades.


Atuação nos territórios: cozinhas, cursinhos, casas de referência, comunas ou nada!


No dia 13 de março deste ano, ao inaugurar a primeira Cozinha Solidária na Brasilândia, periferia da Zona Norte de São Paulo, o MTST já anunciava o seu ambicioso, mas realista, projeto: uma nova cozinha solidária será inaugurada por semana ao longo do mês, dobrando a meta no mês de abril. A proposta do movimento é inaugurar 16 cozinhas até o final de abril em 10 estados brasileiros. Com a proposta, que inclui também iniciativas de construção de hortas comunitárias urbanas, o MTST busca atuar no sentido de estreitar laços com a comunidade, criando espaços de referência, reforçando valores de solidariedade e coletividade, além, é claro, de agir objetivamente em um tema que voltou a assombrar o povo brasileiro: a segurança alimentar. A fome tem sido uma realidade cruel que atinge milhões de brasileiros em função da carestia, da inflação, da redução drástica do rendimento dos trabalhadores, do desemprego estrutural e da política genocida de gerenciamento da pandemia levada à cabo por Bolsonaro, governadores e prefeitos. De acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, cerca de 55% dos domicílios brasileiros sofreram com a fome em 2020. E o cenário não mostra melhoras em 2021.


Desde o início deste ano, o professor da Faculdade de Direito da USP, Alysson Mascaro, e o deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, Glauber Braga, têm pautado o projeto de construção de Centros Socialistas espalhados pelas periferias brasileiras. A ideia de Mascaro e encampada por Glauber teve seu primeiro fruto concreto no final de março, com a inauguração do primeiro centro em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. A proposta dos Centros Socialistas é criar pontos de referência nos bairros que ofereçam espaço para a organização da luta anticapitalista, configurando-se como unidades de trabalho político-ideológico. Para Mascaro, os Centros Socialistas, que não tem formato, dimensões ou modelo de atuação previamente definidos, serão pautados pelo trabalho de disputa ideológica anticapitalista mais ampla articulado com as lutas sociais já existentes e inerentes aos territórios. Na concepção do professor, os Centros Socialistas devem cumprir o papel de organização política que os sindicatos tiveram em momentos anteriores ou, em suas palavras, “O sindicato e a política institucionalizada são a forma de arregimentação política do fordismo; mas são os Centros Socialistas a forma organizacional de base no capitalismo pós-fordista” (MASCARO, 2021).


No final de janeiro de 2021, o Movimento de Mulheres Olga Benário anunciou a criação da Casa de Referência Laudelina de Campos Melo. A Casa foi instalada em uma antiga fábrica abandonada no Bairro do Canindé, região central de São Paulo e tem como proposta ser um centro de acolhida e residência para mulheres vítimas de violência. A partir da constatação do crescimento vertiginoso de casos de violência contra mulheres em todo o Brasil, intensificado pela pandemia e o descaso dos poderes públicos no combate a este tipo de violência e no acolhimento e proteção das vítimas, o Movimento de Mulheres Olga Benário, ligado ao partido Unidade Popular pelo Socialismo (UP), busca além de oferecer apoio às vítimas, promover debates, oficinas e atividades culturais, tornando-se assim também um espaço de formação política e de disputa de ideias incrustado no bairro de grande circulação de trabalhadores.


Com quase 15 anos de existência, a Rede Emancipa atua em um já consagrado campo de atuação dos movimentos sociais e organizações políticas: os cursinhos populares. Com cerca de 40 unidades distribuídas em todas as regiões do país, a Rede Emancipa, por meio da plataforma Poder para as periferias, busca construir um programa de emancipação expresso pelas lutas populares nos bairros, favelas, territórios e cidades do país. A plataforma, lançada em 2020, tem como mote fundamental a articulação entre duas dimensões de grande relevância ao longo da história das lutas populares e que se intensificaram com a pandemia: 1) a necessidade de organização para o enfrentamento da crise política, econômica, sanitária e ambiental que se agudiza e que atinge de maneira mais intensa mulheres, pretos, pardos, trabalhadores precarizados e informais; 2) o fomento à participação de militantes da rede nas disputas eleitorais a partir do entendimento da importância de disputar espaços e colocar a periferia no centro da luta política institucional.


Partindo da constatação do esgotamento do modelo de atuação dos partidos de esquerda e das organizações populares no Brasil nos últimos anos, sobretudo a partir da escalada reacionária e autoritária que desencadeou o Golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018, as Brigadas Populares adotaram uma nova estratégia condizente com a peculiaridade do momento histórico que vivemos. Buscando se afastar do modelo de atuação ancorado na aposta ingênua nas instituições e na legalidade e que tem na luta popular apenas uma ferramenta auxiliar, as Brigadas respondem ao desafio colocado ao conjunto dos partidos de esquerda e movimentos sociais de “voltar ao trabalho de base” compreendendo este trabalho de base como uma metodologia que visa “converter o conflito da vida cotidiana em um antagonismo social que constitua um sujeito revolucionário novo”. Em outras palavras, trata-se de articular as demandas imediatas do povo à luta política mais ampla, disputando espaços e tempos, credenciando o projeto político de transformação radical da sociedade. Esta atuação se dá no local de vida dos trabalhadores, nos bairros de moradia, nos territórios onde os conflitos do cotidiano se manifestam. De acordo com Pedro Otoni,


O local de moradia é, ainda, um espaço de encontro de aspirações comuns, e é nessa brecha que aparece uma possibilidade de reorganização do projeto popular e nacional (...). Atuar no território significa atuar no espaço no qual o conflito se expressa como cotidiano, momento em que a política não aparece como tal (na forma de espetáculo), mas se revela por suas consequências (OTONI, 2017).

Desta necessidade de atuar no território, nos bairros, emergem as Comunas, como parte da estratégia de Resistência Popular Prolongada, que se constituem como unidades territoriais de organização social e política do povo. São espaços políticos mas, essencialmente, físicos. Instalam-se nos bairros engajando a comunidade, forjando sujeitos sociais por meio de seu próprio protagonismo e identificação com narrativas anti-hegemônicas. Assim, as Brigadas Populares avançam na construção de comunas em diversos estados do Brasil, como Ceará, Rio de Janeiro, Pará e no Distrito Federal. Nestes espaços são realizadas as mais diversas atividades, como cursinhos populares, feiras, cursos de formação, oficinas e atividades culturais.



Foto: Brigadas Populares


A necessidade de superar antigos modelos de atuação e instrumentos de intervenção política que se mostram insuficientes ou ineficazes na atual conjuntura se mostra urgente, assim como a construção criativa de novas práticas. É latente, cada vez mais, a necessidade de uma militância organicamente inserida nas massas e voltada para a ação prática focada no trabalho de base, que tenha como horizonte a transformação radical da sociedade, mas que também não deixe escapar as lutas e demandas imediatas do povo. Uma militância que apreenda o movimento real que constrói a superação do estado de coisas atual. Em tempos de crise econômica, política, social e sanitária, as necessidades urgentes do povo não podem ser esquecidas, sobretudo pelas organizações que se pautam pela melhoria objetiva nas condições de vida da grande maioria da sociedade, os trabalhadores e trabalhadoras que cotidianamente lutam pela sua sobrevivência. A disputa pelas ideias, e portanto, pela hegemonia, se dá onde os pés pisam. No chão concreto da realidade cotidiana, onde vive a imensa maioria do povo.



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REFERÊNCIAS:

MASCARO, Alysson. Sobre os Centros Socialistas. Blog da Boitempo, 2021. Disponível em https://blogdaboitempo.com.br/2021/03/05/alysson-mascaro-sobre-os-centros-socialistas/


OTONI, Pedro. As comunas: estratégia para fortalecer a organização comunitária. Brigadas Populares (site), 2017. Disponível em https://brigadaspopulares.org.br/as-comunas-estrategia-para-fortalecer-a-organizacao-comunitaria/


NORMANHA, Ricardo. A ofensiva neoliberal e os impactos para a organização da classe trabalhadora. Disponível em https://medium.com/@normanha.ricardo/a-ofensiva-neoliberal-e-os-impactos-para-a-organiza%C3%A7%C3%A3o-da-classe-trabalhadora-86d9b843716a


Para conhecer mais:

Cozinhas Solidárias - MTST: https://mtst.org/mtst/as-cozinhas-solidarias-do-mtst-refeicoes-gratuitas-e-afeto-nas-periferias-do-brasil/


Centros Socialistas: https://blogdaboitempo.com.br/2021/03/05/alysson-mascaro-sobre-os-centros-socialistas/


Casa de Referência Laudelina de Campos Melo: https://www.facebook.com/Casa-de-Refer%C3%AAncia-Laudelina-de-Campos-Melo-104635021647135/?ref=page_internal


Rede Emancipa: https://www.facebook.com/RedeEmancipa/


Comunas - Brigadas Populares: https://brigadaspopulares.org.br/as-comunas-estrategia-para-fortalecer-a-organizacao-comunitaria/


Ricardo Normanha é sociólogo, professor e pesquisador.

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