A disputa da História e anticolonialismo

Rafael Torres*


Um evento de extrema importância para esse debate e que deve ser recordado, é o saudoso Congresso de Baku, ocorrido em 1920, após a criação da 1° Internacional Comunista - organizada por Lênin - em 1919. O Congresso de Baku traz, a priori, uma questão central do pensamento crítico: a experiência dentro das colônias.


Veja, é muito complicado debater as diversas correntes do pensamento marxista, todas possuem alguma contribuição influente para a construção do pensar crítico. Porém, sem dúvida e sem medo de errar, o que qualquer marxista deve ter é o mínimo de proximidade com o marxismo anticolonial. Eu parto do pressuposto que se a teoria marxiana/engeliana, e posteriormente, o marxismo em si, repensam o mundo, transformando-o a partir da necessidade da maioria, da classe trabalhadora, ele por essência é um pensamento anticolonial. Porém, existe um abismo de produção intelectual existente entre ter contato com obras do epicentro do capitalismo e o berço do colonialismo, no caso a Europa e noutro momento os EUA, e ler a produção de autores da periferia do capital. Esses autores trazem e deram outros ares às questões que não haviam sido debatidas de forma ampla anteriormente. Um salto de qualidade.

Vejamos, Marx e Engels não haviam dado ampla atenção à questão negra, não haviam pensado de fato o papel do colonialismo na formação social do Centro-Sul geográfico, mesmo que houvessem escrito algo que viria a ser o desabrochar dessa flor revolucionária. Lênin, o líder máximo da Revolução Russa, pensando no papel de formação do czarismo na Rússia, começa a produção extensa sobre a questão colonial. E posteriormente vários membros do Partido Bolchevique fizeram o mesmo.

Dito isso, proponho uma coisa para os marxistas, incluso eu: paramos de pensar a classe trabalhadora como uma quebra no espaco-tempo. Quando, na transição do século XV para o século XVI, as navegações começaram a favorecer o acúmulo primitivo do capital para a burguesia em contradição à aristocracia, houve com isso a necessidade da formação de mão de obra para as plantations americanas e outras funções no mundo. O debate aqui é bem interessante e extenso, já que existem autores que trabalham com a ideia de que o racismo sempre se fez presente e sempre existirá. Essa fala carrega o peso da obscuridade filosófica que alguns autores, como Nietzsche, se utilizam. Devemos lembrar que antes do processo de escravização dos povos negros havia uma tal divisão do território de acordo com a produção de cada indivíduo para seu consumo e seu comércio com o senhor feudal, e claro que existe já nessa época, uma determinante no olhar de um branco para o negro, ou vice versa, o que é óbvio, já que você vê a cor do outro. Mas, em nenhum momento existe a divisão racial da cor da epiderme, ou seja, não existe o debate sobre racismo. O racismo, como sobreposição de uma raça sob outra, só pode existir quando de fato há, na prática, essa sobreposição de forma econômica, logo se tornando política e social.

Lênin, já citado como organizador da IC, é um marco de divisão no processo de evolução do marxismo. Ele posteriormente com o Partido Bolchevique produz o que viria a ser o marxismo anticolonial. E, como a primeira experiência socialista foi na União Soviética, todas as lutas, e principalmente as vitórias, da classe trabalhadora e do socialismo, tomam como fonte principal o leninismo. Não há dúvidas, por exemplo, sobre a influência de Lênin no pensamento de Fanon, teórico da Revolução Argelina; no pensamento de Mao Ter Tinha, líder da Revolução Chinesa; ou de Thomas Sankara, presidente socialista de Burkina-Faso.

O resgate da História e a disputa pelo papel do comunismo no século XX, são pautas que devem ser tratadas como revolucionárias e de extrema importância na formação marxista. O ensino de História nas instituições, como é de senso comum, passa pelo eurocentrismo clássico, isso porque esse ensino atende às demandas da classe burguesa, sem a mínima disputa da História por parte da esquerda radical. Mas devemos combater isso para não cair no ostracismo e os mesmos erros se repetirem. Em momentos cruciais do século passado, os comunistas foram mortos e expurgados por uma dita Frente Ampla, porém, essa forma de oposição carrega certas preocupações que devem ser analisadas, como o fato de não possuir a mínima chance de haver um centralismo democrático. Ou, recordando o papel dos Sociais-democratas, que apoiaram a Primeira Guerra mesmo sabendo que era uma guerra colonial, pela disputa da partilha do mundo. Ou os anarquistas na Guerra Civil Espanhola, que aniquilaram qualquer possibilidade de vitória sobre as tropas de Franco. Uma Frente Ampla se forma no Brasil em oposição ao governo bolsonarista e devemos ficar atentos a essa oposição, pois figuras como Lula e Ciro Gomes estão com um olhar na urna eletrônica de 2022.

O marxismo anticolonial não é só a arma teórica da revolução no terceiro mundo, mas também um resgate na memória dos povos oprimidos e o papel que tiveram em todas as conquistas do século passado. Lembremos do massacre aos comunistas, lembremos também de quem era a linha de frente dos exércitos nas guerras: os negros. Lembremos que é de dever marxista recobrar essa história e gerar o sentimento de pertencimento nesses processos.


* Rafael Torres é historiador, coordenador da revista Clio Operária, militante da Juventude do MTST, educador popular na rede de cursinhos Podemos+, desenhista e escritor.

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