• Clio Operária

A construção da identidade do negro e sua busca pelas máscaras brancas

Maria Luisa Lima*


Pensar o tema racismo nos leva quase que automaticamente à associação e conceituação deste enquanto a manifestação de agressões físicas e verbais em razão da crença de superioridade de uma raça em relação a outra, sendo muitas vezes deixada de lado a reflexão acerca dos efeitos psíquicos resultantes da opressão racial, efeitos estes que podem manifestar-se tempos depois da agressão sofrida, sendo traduzidos em sinais e sintomas aos quais o próprio sujeito tende a desconhecer a verdadeira origem.


No que se refere ao contexto brasileiro, a opressão racial é marca presente desde o início da vida de qualquer pessoa negra, uma vez que, inseridas em um país racista como o Brasil, envolto no mito da democracia racial e que manifesta seu ódio ao povo negro desde as formas mais sutis até as mais escancaradas, o racismo está diretamente vinculado à construção da identidade do negro. Desde a infância, fase que marca o início da constituição da identidade, o racismo age como molde dessa identidade em formação através do apagamento e distorção da história dos povos africanos, além da representação negativa do negro que imprimem na criança um olhar negativo sobre si mesma enquanto pessoa negra. É a partir daí que se dá início a destituição da identidade histórico-existencial do sujeito negro e ao processo de negação de seu próprio corpo, como aponta a psicanalista Isildinha Bapstista no livro “O Racismo e o Negro no Brasil — Questões Para a Psicanálise”:

Se o que constitui o sujeito é o olhar do outro, como fica o negro que se confronta com o olhar do outro, que mostra reconhecer nele o significado que a pele negra traz como significante? Para além de seus fantasmas inerentes ao ser humano, resta ao negro o desejo de recusar esse significante, que representa o significado que ele tenta negar, negando-se dessa forma a si mesmo, negando o próprio corpo. (NOGUEIRA, 2017, p. 123)

Sabe-se, como citado, que o sujeito se constitui em muito pelo olhar do outro, no caso do negro na sociedade racista o olhar do outro traz consigo rejeição, invisibilização e inferiorização, levando o negro a identificação com aquilo que se opõe ao que é rejeitado, invisibilizado e inferiorizado: o branco. Para a Psicanálise esse movimento pode ser definido como introjeção, mecanismo de defesa que leva o sujeito a imitação ou incorporação das propriedades do objeto amado ou odiado como parte integrante do ego, o que nesse caso resulta na intensificação do auto-ódio e no que foi colocado por Fanon em “Pele Negra, Máscaras Brancas” como a busca pelo ideal de brancura:

Nas Antilhas, o jovem negro que, na escola, não para de repetir “nossos pais, os gauleses”, identifica-se com o explorador, com o civilizador, com o branco que traz a verdade aos selvagens, uma verdade toda branca. Há identificação, isto é, o jovem negro adota subjetivamente uma atitude de branco. Ele recarrega o herói, que é branco, com toda a sua agressividade — a qual, nessa idade, assemelha-se estreitamente a uma dádiva: uma dádiva carregada de sadismo. Uma criança de oito anos que oferece alguma coisa, mesmo a um adulto, não saberia tolerar uma recusa. Pouco a pouco se forma e se cristaliza no jovem antilhano uma atitude, um hábito de pensar e perceber, que são essencialmente brancos. Quando, na escola, acontece-lhe ler histórias de selvagens nas obras dos brancos, ele logo pensa nos senegaleses. (FANON, 2008, p. 132).

A ambiguidade de identificar-se com o seu algoz e de almejar e pautar sua vida na busca do que este é, tem como resultado profundas marcas psíquicas, haja vista que o ideal estabelecido e o ser negro são pontos completamente distintos, seja no que se refere aos aspectos físicos ou no tocante a posição social e histórica do branco e do negro no Brasil. Entretanto, alcançar essa brancura se apresenta como a única possibilidade de legitimação da existência e (talvez) do reconhecimento da humanidade do negro, como é demonstrado por vezes através da frase que caracteriza alguns como “negros de alma branca”. Resultando muitas vezes na despersonalização desses sujeitos, a busca pela brancura é tanto árdua quanto dolorosa, pois sabe-se que a constituição da identidade depende da relação que se tem com quem se é e com o seu corpo. Dessa maneira, quando o corpo não é vivido e pensado como local de prazer, torna-se um corpo odiado e visto como foco permanente de ameaça de dor e de morte, o que é acentuado pelas ações da branquitude que, respaldada pelo mito da democracia racial, qualifica o negro enquanto inimigo, garantindo a manutenção da condição de subalternidade e por vezes alienação deste que, mesmo diante da opressão estrutural sofrida, se questiona quanto a existência do racismo no país.


Partindo desse ponto, libertar-se do auto-ódio é um processo contínuo pois, diferente das pessoas brancas que estando em posição do que é ideal ou padrão social, tem a possibilidade de levar suas vidas como se não estivessem inseridas em uma sociedade racializada, o negro tem marcado na pele o que o torna alvo. Assim, o restabelecimento da identidade étnica do povo negro no Brasil exige um olhar para as consequências psicológicas do racismo que age na estrutura psíquica deste de forma a torna-lo seu próprio inimigo por meio das distorções que além de fazê-lo negar quem se é de fato, o leva a identificar-se com seu opressor e agir de forma a negar a existência da opressão que o destitui de sua humanidade e de seu lugar no mundo.


*Maria Luisa Lima é estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).


Referências Bibliográficas


FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.


KON, N. M.; SILVA, M. L. D.; ABUD, C. C. O Racismo e o Negro no Brasil — Questões Para a Psicanálise: 1 ed. São Paulo: Perspectiva, 2017.

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