• Giovanna Garcia Cobellis

A Ciência da Religião pela corrente historicista



O objetivo deste texto é entender o objeto de estudo Religião como algo que está ao mesmo tempo privativo e socialmente presente em cada indivíduo e que, em intensidades diversas, exerce influência sobre a vida deste indivíduo. Não cabe aqui a aplicação dos aportes teóricos e metodológicos que serão mencionados para a investigação de um movimento religioso específico, tampouco reduzir o estudo da Religião ao Criticismo iluminista e acadêmico que por vezes trata este objeto de estudo como algo já superado ou como atraso cognitivo, escancarando a discriminação com o tema.

Estudar Religião é sair da simples observação dos dogmas e preceitos que são particulares de cada manifestação religiosa e partir para a análise metodológica e teorização a respeito da influência e ação da Religião dentro dos parâmetros sociais da(s) sociedade(s) em que ela se estabelece. Todo povo, tribo, comunidade e nação que existe (e que já existiu) apresenta ao menos uma manifestação de cunho religioso, que geralmente pode ser observada na interface cultural, mas também nas esferas política (a exemplo do Império Romano sob comando de Constantino – 306 a 337 d.C.) e social (para os povos gregos na antiguidade), sendo essas religiões ainda existentes ou não em sua originalidade ou em ramificações.

Está na natureza do ser humano se apresentar como um ser religioso, uma ideia que surge no século XIX e ocupa espaço na academia no século XX, na perspectiva do termo homo religiosus, onde a antropologia frankliana diz que “o homem é um ser à procura de sentido” (FRANKL, p. 45), sentido esse para a vida e “pós-vida” e são as experiências religiosas de cada indivíduo ao mesmo tempo individuais e coletivas. Individuais porque contemplam o ser humano em sua particularidade, fazendo da experiência única e gerando dela um determinado testemunho. Coletivas porque este testemunho individual é em algum momento compartilhado para outros, que comumente se apropriam e dão novo significado ao testemunho “original” para aceitação da manifestação religiosa.

Sendo um dos mais enigmáticos objetos de estudo das ciências, pesquisar Religião é lidar com algo que pode (e deve) ser estudado à partir de diversas óticas como as artes, política, cultura, arquitetura e moda e ser tomada como objeto de análise de áreas tais quais Antropologia, Sociologia, Psicologia, Psicanálise, Sociologia e História, que exercem dominância de pesquisa. Dentro dos parâmetros científicos, para que fosse feita a investigação da Religião esse objeto de estudo precisaria ser reificado, ou seja, sua abstração precisa ser tratada/encarada como algo concreto/matéria e quase palpável, que fosse posteriormente entendido cientificamente, mas a realidade é que o termo religião aparece desde o século I com definições etimológicas (estudo da origem e formação das palavras) e por outras definições diversas que não contemplavam todas as vertentes religiosas até então conhecidas à época em que foram elaboradas. Então, como se resolve esse enlace?

Se quando estudamos a Religião, estudamos por subsequência a sociedade e o ser humano inserido dentro desta em busca de transcendência, falamos de um objeto de análise em comum com as ciências humanas: o homem. Desta forma, cada área das ciências humanas contribui com uma linha de pesquisa de sua competência, trabalhando interdisciplinarmente para uma análise ampliada desde objeto de estudo polissêmico (com mais de um significado), como se observa nas palavras do filósofo Dilthey, grande influenciador dos estudos de Religião:

Ao lado das ciências naturais, e partindo das tarefas da própria vida, desenvolveu-se por si mesmo e de maneira espontânea um grupo de conhecimentos ligados uns aos outros por meio da comunhão de seu objeto. [...] Todas essas ciências descrevem, narram, julgam e formam conceitos e teorias em relação ao mesmo fato: a espécie humana. (DILTHEY. 2010, p. 19-20)

O grande desafio das Ciências Humanas é, até hoje, conseguir trabalhar e se desenvolver em um ambiente onde as Ciências Naturais (física, química, geologia etc.) sempre exerceram dominância, não apenas pelo fato de terem sido estabilizadas antes, mas principalmente por serem a base onde as Ciências Humanas se consolidaram, principalmente quando falamos no aspecto metodológico das Ciências Naturais. A ciência moderna (desenvolvida na Europa – séc. XVI), possui uma metodologia fundada no racionalismo e na observação e experimentação de teorias e objetos através de instrumentos e ferramentas específicas, dentro de uma cosmovisão que, em longo prazo, trabalha com a possibilidade de previsão e posterior dominância dessas teorias e objetos, como coloca Oliveira:

Em uma análise mais detida, a ligação da ciência moderna com a dominação da natureza manifesta-se no caráter experimental de sua metodologia, uma vez que tantos experimentos como dispositivos tecnológicos são formas de dominação da natureza. [...] na medida em que a ciência, mesmo quando concebida como ciência pura, elege o teste experimental como critério de validação de teorias, ela já exibe a marca de suas afinidades com a tecnologia e seu comprometimento com a dominação da natureza. (OLIVEIRA. 2008, p. 100)

Dentro deste cenário onde se valoriza uma metodologia para se comprovar se algo é real ou não, um nome ganha destaque devido à sua contribuição secular: René Descartes, que mesmo não almejando estabelecer um método universal de pesquisa, como ele mesmo diz “meu propósito, portanto, não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que maneira me preocupei em conduzir a minha” (DESCARTES, p.17), acaba por influenciar fortemente as diretrizes de pesquisa da Ciência, que sucedia de um passado filosófico medieval.

Descartes (1596-1650), filósofo, físico, matemático - e cristão -, sempre teve “um enorme desejo de aprender e distinguir o verdadeiro do falso para ver claramente em minha ações e caminhar com segurança nesta vida” (DESCARTES, p.21), desenvolvendo o que ele chama de “método” em Discurso do Método para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências. O Método consiste, superficialmente falando, em evidenciar aquilo que é tomado como fato a partir de determinadas regras. Analiso o objeto/ideia dividindo-o em diversas partes e analiso cada uma delas, sintetizo e ordeno meus pensamentos que surgem das análises, organizo os mais simples e os mais complexos e reviso cada uma das partes do objeto para que nada tenha escapado ao meu estudo. Se por fim cada uma das partes se apresenta absolutamente evidente, tenho a evidência do objeto/ideia.

Esse histórico de consolidação das Ciências Humanas e as influências metodológicas das Ciências Naturais, fazem da sobreposição de uma ciência por outra um enfrentamento atemporal. Levando em consideração esse fatores e os desafios dos pesquisadores em conseguirem uma definição única do que é Religião, a História desenvolveu uma corrente de pesquisa denominada Historicismo, que vê na história o local de análise e previsão do ser humano na sociedade e em seus aspectos.

Sobre o papel da História, o historiador Kosseleck diz:

Passou-se a exigir da história uma maior capacidade de representação, de modo que se mostrasse capaz de trazer à luz, em lugar de sequências cronológicas, os motivos que permaneciam ocultos, criando assim um complexo pragmático, a fim de extrair do acontecimento casual uma ordem interna. (KOSSELECK. 2006, p. 51)

O historicismo (ou corrente historicista) aparece como um dos grandes paradigmas das ciências modernas, podendo ser trabalhado sob um duplo viés de compreensão, o “positivo” e o “niilista”. O viés positivo se mostra inclinado ao progresso, nascendo de uma ideia primária de que a essência da natureza humana era imutável e essa natureza precisava ser transformada em leis, de forma que a ação humana pudesse ser historicamente comparada no decorrer das épocas (com a ajuda da historiografia para isso) e pudesse se estabelecer uma previsão do comportamento humano através dessas leis e resolver problemas sociais do presente. O viés niilista se constrói com a ideia de devir histórico/devir radical e se origina da insatisfação com o viés otimista, apresentando uma visão onde o processo de conhecimento do homem está restrito ao período em que ele vive, sendo assim a história imprevisível, onde todos os processos sociais em curso são frutos da inquietação daquele tempo.

Ambos os vieses apresentam pontos positivos e aspectos problemáticos e, como metodologia alternativa à corrente historicista, a fenomenologia aparece como “rota de fuga” das ideias historicistas, mas assim como essa, seu uso também não é unânime entre os cientistas da Religião. A fenomenologia procura estabelecer o entendimento sobre Religião levando em consideração, principalmente, o impacto emocional da manifestação religiosa e seu significado para o homem religioso, sem que haja a necessidade de explicar e provar a tal manifestação, mas esse é assunto para um futuro texto.



Giovanna Cobellis é Historiadora, pesquisadora sobre Violência do Estado, História das Mulheres e pós graduanda em História das Religiões pela Universidade Cidade de São Paulo.



Referências:

FRANKL, V. E. (1990). A questão do sentido em psicoterapia (J. Mitre, Trad.). São Paulo: Papirus. p. 45.


___________ Dicionário de Português. São Paulo: Melhoramentos, 2002. p. 214.


DILTHEY, Wilhelm. A construção do mundo histórico nas Ciências Humanas. São Paulo: EDUNESP, 2010. p. 19-20.


OLIVEIRA, Marcos Barbosa de. Neutralidade da ciência, desencantamento do mundo e controle da natureza. Revista Scientiæ Zudia, São Paulo, 2008. p. 100.


DESCARTES, René. Discurso do Método. São Paulo: Escala, 2009. 2ª ed. p. 17-21.


KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006. p. 51.


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