• Clio Operária

A Censura Velada à Indústria Cinematográfica Brasileira

Robson J. Almeida*


A atual conjuntura da sociedade brasileira está deliberadamente afetada por uma censura velada ao audiovisual brasileiro, o governo camufla com discursos rasos e enfadonhos a propagação de sua ideologia aos cidadãos. Nos últimos anos a indústria cinematográfica cresceu em território nacional e mundial, trazendo temas aonde dão voz à diversidade.

Cena emblemática do premiado filme: Cidade de Deus. Fonte: https://ogimg.infoglobo.com.br/in/21632174-e3e-97c/FT1086A/652/xCidade-de-Deus-foto-arma-cred.-Cesar-Charlone.jpg.pagespeed.ic.-G4tGOmTn4.jpg

Nesse contexto histórico, filmes com temáticas que retratam a periferia, o sistema penitenciário e os grupos LGBTQI, ganharam um alvoroço enorme da mídia e também das massas populares, atingindo a elite brasileira, que por conta das produções se sentiu ameaçada ao repertorio de criticas construtivas ao sistema. Deixando claro como a luta de classes é necessária, pois a classe mais oprimida quando se desperta pode derrubar a classe opressora.


Sendo assim é difícil não citar o atual governo que desde 2018 deixou claro suas intenções em relação às produções do cinema nacional, havendo uma perseguição ideológica a arte que se expressa na indústria audiovisual, alcançando assim as massas populares e diferentes classes sociais. A indústria enfrenta uma censura e perseguição velada, que oprime a arte por questões ideológicas e religiosas impostas atualmente. O então presidente deixou claro em suas declarações que não irá apoiar filmes com temáticas que, segundo ele, vá contra a família brasileira”. Porém atacar o áudio visual brasileiro não faz sentido, como prova os seguintes aspectos:


O setor gera R$ 25 bilhões ao ano, equivalente a 0,46% do PIB nacional.


A indústria do audiovisual é mais forte atualmente no Brasil do que a têxtil, de produção de eletrônicos e de informática e farmacêutica.


O mercado do audiovisual cresceu 153% em oito anos, na contramão do que ocorreu com o país.


● O crescimento do setor de mídia e entretenimento no Brasil para os próximos anos está estimado em 4,6%, segundo estimativa da PricewaterhouseCoopers;


● A descentralização da produção brasileira permitiu que estados fora do Sul/Sudeste conseguissem fazer seus primeiros longas com distribuição em todo país em décadas — o Amazonas, por exemplo; O audiovisual emprega, pelo menos, 100 mil pessoas ao redor do Brasil.


● A vitória de dois filmes brasileiros — “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” e “Bacurau” — no Festival de Cannes 2019, abrindo portas para boas chances no Oscar do ano que vem.


● A presença de longas nacionais em festivais ao redor do planeta — Berlim, Karlovy Vary, Locarno, San Sebástian, etc — nunca se fez tão presente quanto agora com os mais diversos diretores de várias regiões brasileiras.


● O crescimento de co-produções entre o Brasil e outros países, além das obras estrangeiras gravando cada vez mais no país — “Black Mirror” e “Sense8” que o digam.


● A importância cultural, histórica e identidade trazida pelo cinema como campo reflexivo e de debate sobre a nossa sociedade e dilemas, além de servir também como entretenimento para a população; O exemplo da Coreia do Sul e o ‘soft power’ do país com o K-Pop e o cinema, gerando receitas bilionárias para o país.


Os produtores dos filmes lançados nos últimos anos sabem do ‘poder’ em fazer filmes que despertam o sentimento de crítica ao sistema, mostrando como ele é insignificante e dependente da classe que o próprio sistema descarta. Por isso há essa perseguição e censura a todos que querem produzir filmes com essa temática crítica; é conivente pelo ponto de vista do atual governo limitar o povo a ter acesso à informação e a ter um conhecimento amplo.


Cena do filme: Carandiru; O Filme retrata a historia com esplendor do que foi o maior presidio da America latina. fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/29/politica/1475178545_390211.html

A incoerência é evidente, pois o audiovisual brasileiro cresceu e está trazendo retorno financeiro e reconhecimento ao país, além dos aspectos turísticos que aumentaram com as produções.


Diante disso, para mexer drasticamente com esse setor, são necessários argumentos fundamentais e técnicos, o que não ocorre atualmente. Os cortes nas produções, principalmente as que abordam temas sobre diversidades, fazem com que o setor sofra profundamente para produzir seus filmes.


“Tradicional evento de São Paulo, o Festival Mix Brasil quase não saiu do papel em 2019, os organizadores já se preparavam para o pior desde o ano passado, quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente. Ficamos esperando os cortes, e foi exatamente o que aconteceu”, conta Josi Geller ao TAB, diretora-executiva do festival que acontece desde 1993.


“Quando um evento dedicado a produções audiovisuais que abordavam diversidade era algo inimaginável por aqui. O corte na 27ª edição realmente foi na carne, mas mesmo com orçamento reduzido em 40%, por conta de perda de patrocínio e a extinção de editais para cultura, o bloco saiu na rua, ainda que em versão enxuta, reduzindo sua programação para setes”.


As produções que trazem a representatividade LGBTQI, ao sofrerem atualmente com essa censura, mostram a real face e a intenção preconceituosa do atual governo, que ao invés de apoiar esses grupos que já são estigmatizados pela sociedade, prefere por silencia-los.


Cena do Filme: Greta; Filme foi perseguido e criticado por sua temática LGBTQI. Fonte: https://conteudo.imguol.com.br/c/entretenimento/97/2019/09/04/marco-nanini-em-cena-do-filme-greta-1567606555817_v2_900x506.png
“Vai ter um filtro sim. Já que é um órgão federal, se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine. Privatizaremos, passarei ou extinguiremos”, afirmou o presidente.

O mais aterrorizante é o profundo apoio de boa parte da população brasileira perante a opressão a esses temas abordados na indústria áudio visual. Claro que isso não é novidade no Brasil, muito menos raro, mas piorou drasticamente com o atual governo e seus representantes, devido as suas declarações de cunho preconceituoso, fazendo com que o cidadão comum veja como aceitável essa perseguição a esses grupos.


“A censura a Agência Nacional de Cinema (Ancine), já é sentida na pele pela classe artística. O órgão, que deveria estimular a produção nacional sem interferir com posicionamentos ideológicos e preconceitos, passou a cortar verbas de filmes com temas políticos e de diversidade sexual”. Os casos mais recentes aconteceram com “Marighella”, “Greta”, “Negrum3” e “Chico: Artista Brasileiro”.



O Filme Marighella tinha sua estreia prevista em 20 de novembro de 2019, mas a Ancine alegou problemas na autorização do filme. Fonte: https://www.omelete.com.br/filmes/marighella-wagner-moura-censura

Em dezembro de 2019, o site da Agência Nacional de Cinema (Ancine) retirou a divulgação de filmes nacionais brasileiros com temáticas críticas, além de retirar cartazes dos filmes em sua sede a pedido da diretoria. Por que a Ancine está sendo silenciada? Questionada a diretoria da Ancine, respondeu. De acordo com Cazarré (assessor da comunicação do órgão), a decisão foi tomada para seguir princípios deisonomia:“Se eu tenho um cartaz de um filme aqui, eu tenho que ter de todos. Eu sei que no clima que as coisas andam, as coisas são levadas para outro lado”.




A atriz Mariana Ximenes protesta contra a censura à Ancine. Fonte: https://f.i.uol.com.br/fotografia/2019/12/10/15760184505df02212d4fbc_1576018450_3x2_md.jpg

Claro que essa atitude repercutiu negativamente. Essa situação, de o setor que já vem sendo atacado atualmente, retirar filmes que por acaso são com temáticas críticas, nos leva a pensar que estão nos privando de conhecer esses filmes, sejam eles antigos ou atuais, retirando-os do órgão que mais devia divulga-los.


Com toda essa perseguição, quero salientar o filme Bacurau, que ganhou um alvoroço nacional e internacional com seu estilo único, onde o telespectador é surpreendido com o enredo e com uma critica fundamentada. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles são os responsáveis por essa experiência cinematográfica. Mesmo sofrendo represálias, o filme se destacou na mídia, ganhou prêmios no exterior, bateu recorde de público nos cinemas brasileiros e recentemente o premiado diretor Bong Joon-ho, que ganhou o Oscar de melhor diretor pelo filme Parasita, assistiu o filme e comentou sua experiência:

“É muito bonito, possui uma energia única e traz uma força enigmática e primitiva”. Bong Joon-ho comentou que o governo brasileiro precisa “apoiar mais o cinema nacional”.

Cena do filme: Bacurau. Fonte: https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2019/07/bacurau

Outra excelente produção brasileira é o documentário Democracia em Vertigem,de Petra Costa, que concorreu ao oscarde Melhor Documentário. O oscar infelizmente não veio, mas o que fica de lição é que mesmo a indústria nacional sofrendo perseguição, cortes e represálias, o áudio-visual conseguiu chegar na maior premiação mundial cinematográfica, ganhando assim reconhecimento mundial.



Democracia em Vertigem; é um documentário que tem como pauta a politica brasileira, foi duramente contestado pelo atual presidente do Brasil e seus adeptos. Fonte: https://static.poder360.com.br/2020/01/democracia-em-vertigem-1-e1580716776158-868x644.jpg

Infelizmente o documentário vem sofrendo críticas do público e, pasmem, do atual presidente, que chamou o documentário de‘porcaria’,mesmo sem ter assistido. O que impressiona é a falta de inteligência, pois ao invés de apoiar toda essa visibilidade que o Brasil vem ganhando, prefere atacar e menosprezar todo o trabalho realizado. Contudo o cinema nacional segue forte e resistente a todos os ataques que vem sofrendo. Está investindo e dando voz e diversidade para todas as classes sociais. Cinema é arte, a arte nunca vai acabar ou se padronizar.


*Robson J. Almeida é historiador, escritor e sempre ávido por transmitir conhecimento.


Referências


https://exame.abril.com.br/brasil/bolsonaro-chama-democracia-em-vertigem-de-porcaria-sem-ter-assistido/


https://jc.ne10.uol.com.br/cultura/2020/03/5601638---possui-uma-energia-unica----diz-diretor-de--parasita--apos-assistir--bacurau--em-londres.html


https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2019/11/23/sob-risco-de-censura-e-ataques-de-bolsonaro-cinema-lgbt-amplia-vozes.htm


https://www.brasil247.com/cultura/bolsonaro-faz-duplo-ataque-ao-cinema-nacional-com-ameaca-e-censura


https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml


https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/12/ancine-retira-cartazes-de-filmes-de-sua-sede-e-dados-sobre-filmes-de-site.shtml





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