• Layana Sales

A capitalização das figuras revolucionárias: um olhar sobre Frida Kahlo.

Sabemos que, hoje em dia, o capitalismo se coloca socialmente de várias formas, visando sempre o lucro. Esse sistema se acomoda inutilmente, dentro dos diversos movimentos sociais e lutas da esquerda, tendo como objetivo o lucro demasiado em face dos produtos eventualmente vendidos, quais portam os dizeres ou as simbologias do movimento em questão, como, por exemplo, a campanha da marca de cervejas e bebidas alcóolicas Skol na parada do orgulho LGBTQIA+ de 2017[1].


Contudo, o problema não se fixa apenas na utilização de lutas sociais para lucro, mas sim na relação das empresas com as questões discutidas em cada movimento[2]. Advindo (o pensamento) do problema da desqualificação de lutas por grandes empresas, ao apenas lançarem produtos com palavras de ordem, entre outros importantes signos, não fazendo questão de humanizar seu trabalhador, qual seria a relação entre capital e utilização de figuras públicas revolucionárias? Quais os problemas dessa capitalização? A mitificação desses seres humanos leva a quê?


Frida Kahlo, mulher latina, comunista e Pessoa com Deficiência. Há várias representações dessa artista mexicana em voga, camisetas estampadas com, pasmem, queridos leitores, a pintora andando de bicicleta, além de outras representações mais grotescas como a Barbie Frida Kahlo[3], da série “Barbie: Mulheres Inspiradoras”, que custa em média R$500. Para compreender a luta de Frida e o porquê da comercialização de sua imagem ser maléfica, temos que entender o básico da história de tal mulher.


Frida nasceu em 1907, no México, sendo a quarta filha do casal. Aos seis anos contraiu poliomielite, doença que atrofiou seus pés e deixou suas pernas sem força. Aos 13, entrou para a Juventude Comunista e, coincidentemente – ou não -, durante sua passagem por tal organização, ocorria simultaneamente a Revolução Mexicana (1910-1920), fato histórico, pelo qual ela foi apaixonada, chegando a dizer que nascera em 1910. Aos 18 anos sofreu um acidente, em que um ônibus atropelou-a, levando-a a permanecer vários meses em recuperação. O acidente gerou, diversas fraturas, incluindo três em sua coluna vertebral. Assim sendo, Frida perdeu o contato com muitos colegas, porém, sua mãe a ajudou, construindo mecanismos para ela sentar-se e um espelho para que se visse, o que deu-lhe a fagulha inicial para começar a pintar.


Vê-se então com essa pequena biografia da artista, que foi destinada a uma vida dolorosa, mas tornou-se um símbolo de luta feminista, comunista e latina. Então, apropriar-se de sua figura para concentrar renda e explorar trabalhadores é, no mínimo, incoerente. Frida foi uma mulher de luta, uma mulher que apresentou ao mundo o poder da arte, não foi uma boneca, foi uma mulher real, cheia de impressões e de personalidade única, consagrou-se como artista e militante.


Então, a vender como algo que não era, ou seja, apenas uma boneca ou uma mulher andando de bicicleta, não representa o quão importante foi para as lutas sociais, esvaziando o significado de sua vida, dando a entender que fora apenas alguém que esteve aqui e pintou certos quadros, sendo que, sabemos pela sua trajetória e pelo seu legado, que não foi apenas isso, mas sim, foi e segue sendo um exemplo para muitos.


NOTAS:

[1] FIGURA 1. [2] Quero deixar claro aqui, que esse excerto aborda a relação marca x capital x movimentos sociais. Mas que em minha opinião nenhum ramo do capitalismo ajuda a combater opressões, já que o princípio de todas (somado com o conservadorismo social presente pelo fator histórico) é a exploração do trabalhador diante do capital. [3] FIGURA 2


REFERÊNCIAS:

BASTOS, Marli Miranda; RIBEIRO, Maria Anita Carneiro. FRIDA KAHLO: uma vida. Psicanálise & Barroco, Rio de Janeiro, v. 5, n. 3, p. 47-77, jan. 2007.


ANEXO:

FIGURA 1








FIGURA 2



















Layana Sales é estudante de história, pesquisa sobre história das mulheres latino-americanas nos regimes militares.

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