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20 anos sem Milton Santos


Nascido em 1926, intelectual, negro, oriundo do interior da Bahia, Milton Santos foi uma das grandes mentes da Geografia Brasileira. Apesar de formado em direito, sempre lecionou geografia no nordeste brasileiro até que em 1956 conclui seu mestrado na França.


Em 1960 já colabora com a ala progressista e trabalhista brasileira, chegando a ser preso no Golpe de 1964 e posteriormente exilado, onde lecionou na França, Canadá, Estados Unidos, Venezuela e Tanzânia. Consegue voltar em 1977 iniciando sua carreira na FAU-USP, posteriormente na UFRJ até voltar para a Geografia da USP. Ganhou inúmeros títulos de doutor Honoris Causa e o mais importante prêmio da geografia, o Vautrin Lud de 2001.


Milton Santos foi um intelectual que fincou raízes na geografia crítica. Eclético, com alguma inspiração marxista, mas economiza autores de todos os lugares que passou para suas definições e refinamento conceitual, apesar de sua preferência pelos franceses.


Sua relevância gera eventos intelectuais até hoje. Como o Seminário Milton Santos 20 anos. Disponível neste link:


https://www.miltonsantos20anos.com.br/


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É difícil dizer quais de suas obras e conceitos foram mais inovadores ou mantém atualidade ou não. O mais prático é expor aqueles que podem influenciar positivamente os revolucionários brasileiros.


Neste recorte arbitrário devemos falar dos Meios e do avanço técnico da humanidade, ou seja, do avanço do poder do trabalho-social, aquele exercido por todos os seres humanos na transformação da natureza, levantados pelo autor:


Meio Natural: momento onde a humanidade e sua técnica não era capaz de alterar a natureza revertendo sua dinâmica. O mundo era de fato limitado pela natureza.


Meio-Técnico: inserido pela primeira revolução industrial fruto da divisão internacional do trabalho, transforma o meio o de vivemos em um conjunto de intervenções técnicas e industriais. A natureza se dobra a vontade do homem.


Meio Técnico Científico Informacional: ligada à terceira revolução industrial, há uma fusão entre técnica e ciência, trabalho estranhado e pensamento. A interligação global coloca o meio onde vivemos em total subordinação ao capital e nossa intervenção neste é limitada por esta nova técnica e interligação-informação virtualmente infinitos.


Além disso, sua conhecida frase " A Globalização é a fase superior do Imperialismo " não nos permite falar de Milton Santos sem falar de globalização. Ou das globalizações. Analisando o mundo pós queda socialista, Milton Santos é um pioneiro na reinterpretação da Globalização, grosso modo propõe três globalizações:






A Globalização como Fábula:


Desenvolve o conceito de Psicosfera, a difusão mundial de notícias, informações e mercadorias cria junto de si um processo de ideologização (no sentido da falsa realidade) mais uniforme, capaz de falsear o real. No campo da informação esta tendência se fez conhecer pelo termo noticia ou ideologia Única.


A Globalização como perversidade:


A violência e competitividade como valores globais. Para a maior parte da humanidade a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades. O desemprego se torna crônico, a pobreza aumenta, novas enfermidades se instalam, a mortalidade infantil permanece, a educação de qualidade é cada vez mais inacessível e o consumo é cada vez mais representado como fonte de felicidade.


A globalização como possibilidade:


As bases materiais do período atual são, entre outras, a unicidade da técnica, a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta. É nessas bases técnicas que o capital se apoia para construir a globalização perversa. No entanto, essas mesmas bases poderão servir a outros objetivos, se forem postas ao serviço de outros objetivos, se forem postas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos.


Devemos lembrar nestes 20 anos sem Milton Santos deste poderoso intelectual Sul-americano, sua inovadora interpretação de mundo e contribuição para a luta dos povos.

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