• Rafael Lopes

É preciso ter fé


Que época difícil para se ter fé, não? A classe trabalhadora encontra-se cercada por todos os lados. No ar caminha o vírus que, como dizem os burgueses, não escolhe classe ou cor. De fato, o vírus não escolhe classe, cor ou gênero. Porém, o homem sim, esse escolhe a quem tratar do vírus. Esse escolhe quem irá morrer sem um respirador e quem irá receber o melhor tratamento possível. E nessa escolha sim, há classe e cor. Até quando tentam negar a luta de classes – nesse caso até com desculpas “cientificas” – ela se mostra cada vez mais aparente. E ela está clara em outros aspectos de nossa vida.

Em Minas, o governador que se diz novo porém é aquilo de mais infame e desgraçado de nossa história, joga à morte trabalhadores que há 20 anos, após perderem seus trabalhos, cultivaram uma terra que seria largada a pura especulação, plantando o alimento, construindo escolas e o mais significativo disso tudo: construindo a coletividade entre pessoas que perderam tudo e, juntas, se reergueram.

Nas ruas da periferia o sangue corre nas sarjetas. A polícia, movida pelos interesses do capital, tortura, quebra perna e pisa no pescoço da senhora que apenas perguntava o porquê daquilo. Sobe o morro, mesmo com todas as intuições proibindo essa ação durante a pandemia, e mata o jovem que jogava bola. Executa, a luz do dia, o jovem que saiu de moto para comemorar seu aniversário. E que crime esse jovem cometeu! Aqui, no extremo da cidade, comemorar mais um ano de vida é o crime mais hediondo a se cometer.

Supostos defensores da fé acusam uma criança de 10 anos de assassina por interromper algo que não pediu, que não procurou, mas que foi forçada a ter. Que fé que essas pessoas defendem? Procurei em tudo aquilo que vejo por fé e não achei nada que condiz com essas atitudes. Essas pessoas que tanto clamam pelo Mito, não possuem mito algum. Pelo menos não o mito que preenche o coração daqueles que não apenas se dizem cristãos, mas vivem como Cristo.

Poucas palavras aqui colocadas, porém quanto sangue que as acompanham? Nessa situação a pergunta que vem é “pra que isso tudo?”. Pra que? Por que? Mas a pergunta que devia nos incomodar é “por quem?” Quem está atrás disso tudo? Os comunistas sabem a resposta.

A burguesia utiliza de seus tentáculos cobertos de sangue para manipular a massa a seu bel-prazer. Deixa o pobre suscetível ao vírus, coloca o pobre que trabalha na saúde em uma situação de desespero, onde vê milhares de outros pobres morrerem diariamente na sua frente, sem ter o que fazer para evitar. Tira o pobre de uma periferia, o treina para que toda a sua consciência de classe e humanidade se esvaia, para que ele vá para o outro lado da periferia e mate sua própria classe a serviço de uma pequena parcela, que não está na periferia e que goza com a situação. Articula por meio de um falso Messias, de uma fé nada cristã, a massa para que ela ataque uma criança de 10 anos que fora estuprada.

A burguesia utiliza de nossas fraquezas para se manter no poder. Aqueles cartazes que vira e mexe aparecem em nossas redes escritos que “somos 99%” nunca foi tão real. Sim, somos 99% da população, mas até hoje o que isso ajudou? Pouco importa nosso tamanho, enquanto não tivermos a consciência de nossa situação como classe. Sem a consciência de classe continuaremos a morrer todos os dias, nas nossas próprias mãos. A burguesia fará de tudo para negar a luta de classes. Porém, nós não podemos negá-la. E como diz Eduardo Taddeo “luta significa agressão mútua, não o povo dizimado em silencio por filhos da puta!” [1].

Por mais que os dias nos deixem céticos sobre a revolução. Por mais que a cada dia que passe, nossas esperanças num mundo novo se esvaiam. Não podemos desistir. A história mostra que aquilo que outrora se mostrou sólido e imutável, se desmanchou no ar. O ódio acumulado, quando orientado pela consciência de classe e pela fé na construção de um mundo justo, ou seja, o ódio quando orientado pela ciência imortal do proletariado destrói tudo aquilo que se mostrou por séculos indestrutível.

E vou além: precisamos ter fé. O ser humano precisa de ter fé! E por mais que muitos marxistas a neguem como um empecilho a revolução, jamais acabaram com ela. Podem vir com sua razão e ciência, mas jamais preencheram o Eu mais profundo do proletariado com elas.

Já diria Mariátegui:

Entretanto, nem a Razão nem a Ciência podem ser um mito. Nem a Razão nem a Ciência podem satisfazer toda a necessidade de infinito que há no homem. A própria Razão encarregou-se de demonstrar aos homens que ela não lhes basta. Que unicamente o Mito possui a preciosa virtude de preencher seu eu profundo. [2]

E eu não nego a razão nem a ciência como fundamentais. Lembre-se que eu coloco o marxismo como a ciência imortal do proletariado. Porém, só elas não bastam. Não são elas que movem o revolucionário, o que o move é sua fé. Não é por meio da ciência e da razão que identificamos as injustiças na nossa vida. Ora, muitas vezes a ciência e a razão foram usadas para justificar as injustiças. Nós identificamos as injustiças quando agonizamos, mas não apenas a agonia que gera dor, como também a agonia que gera ódio. Por mais que a esquerda que se diz limpinha diga que com o ódio não chegaremos a lugar nenhum, o ódio existirá enquanto houver desigualdade, enquanto o povo sentir agonia. E enquanto o capitalismo, esse sistema baseado na expropriação e na exploração da classe trabalhadora, existir, o povo agonizará! E lutará, pois só agoniza aquele que luta.

Quando falamos em luta revolucionária, falamos em propor uma fé que preencha nosso anseio por mudanças. E errados estão aqueles que buscam reproduzir exatamente movimentos revolucionários do passado. As revoluções socialistas nos servem como inspiração, mas não como um modelo que deva ser reproduzindo sem atualiza-lo para nossa realidade. Mariátegui já dizia:

Mas todas as tentativas de ressuscitar mitos passados estão destinadas ao fracasso. Cada época quer ter uma intuição própria do mundo. Nada mais estéril que pretender reanimar um mito extinto. [3]

E aos que nos dizem que nossa fé é divina, enganam-se, pois os desejos que movem a nossa fé são sociais. Não queremos a salvação após a morte, não desejamos o paraíso, queremos a salvação na terra, queremos construir o paraíso na Terra! Nós já temos nossos mito: a revolução social. E àqueles que vão a burguesia em busca de um novo mito, pois já não tem mais fé no nosso mito, Mariátegui alerta:

A burguesia já não tem mito algum. Tornou-se incrédula, cética e niilista. O mito liberal renascentista envelheceu demasiadamente. O proletariado tem um mito: a revolução social. Em direção a esse mito move-se com uma fé veemente e ativa. A burguesia nega; o proletariado afirma. A inteligência burguesa entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria e da técnica dos revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária, como afirmei num artigo sobre Gandhi, e uma emoção religiosa. Os motivos religiosos deslocaram-se do céu para a terra. Não são divinos; são humanos, são sociais. [4]

Devemos defender o nosso mito, a revolução. Devemos reafirmar a nossa fé todo dia e devemos, por fim, não negar nossa agonia, nem nosso ódio, mas sim direcionar o nosso ódio de forma organizada àqueles que nos condenam a morte e a miséria diariamente: a burguesia. Só assim construiremos o paraíso na terra.


Rafael Lopes é historiador, educador popular pelo Rede Emancipa e militante da Juventude do MTST.

Notas:


[1] Eduardo Taddeo, Endereçado a Sociedade https://www.youtube.com/watch?v=z0oiZu3ctik

[2] J. C. Mariátegui, O Homem e o Mito

[3] Idem.

[4] Idem.


Referencias:


José Carlos Mariátegui. O Homem e o Mito. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/mariategui/1925/01/16.htm/. Acesso em 19 ago 2020.

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