• marciopauloas96

É necessário ser combativo, assim como foi Fred Hampton

Em um texto anterior que publiquei, trouxe a discussão sobre o afrofuturismo e pretendo trazer novamente as ideias que demarquei anteriormente, Fred Hampton em diversos discursos proferidos, sempre denota a questão de sairmos do campo da subjetividade e agirmos de forma objetiva. É uma necessidade do materialismo dialético que fundamentem a construção do negro enquanto ser objetivo que vislumbra o próprio futuro e dos demais oprimidos.

Por diversas vezes ainda é discutido as formas de atuações e de participação em projetos e atividades para classes desprivilegiadas, mas nada adianta apenas as reclamações ou a postura neutra. Assim como Fred já proferiu, é necessário sermos ativos e combativos contra o sistema que oprime, isto é, o capitalismo, que traz em si o subproduto do racismo que assola e esgana a população negra, muitas vezes programas como o de café da manhã que eram ofertados pelos panteras para auxiliar no combate a fome da população negra que morava nos guetos, foram questionados no partido dos panteras negras.

Porém Fred Hampton de maneira categórica rebate:

“[..]Vocês não sabem se as pessoas apoiam o programa de café da manhã, porque vocês nunca alimentaram ninguém. Vocês não sabem nada sobre as clínicas de saúde gratuitas porque nunca perguntaram a ninguém.[...]” (Trecho de discurso proferido na Universidade do Norte de Illinois em novembro de 1969. Traduzido por Gabriel Landi).

Por mais complexa que seja a atividade, é preciso vislumbrar o futurismo dessa participação. É necessário instruir para os caminhos que nos tirem da metafísica e caminharmos para o materialismo dialético, o qual será a saída para um afrofuturo e o definhamento da estrutura racista e capitalista que foi imposta.

Fred Hampton em um discurso na universidade de Illinois disse que várias pessoas não conseguiam dialogar com o movimento, por estar preso a sua versão do mundo, e a negação para enxergar o mundo como ele é, e o que pode ser feito para alterar e melhorar, se todos tivermos o compromisso com a atividade revolucionária, não é apenas dizer o que tem de errado com aquela atitude, é sim trabalhar nas bases e mostrar quais os reais problemas. O que Hampton apontara lá em 1969 ainda acontece com as discussões sobre os negros. Quando a subjetividade toma conta das atividades e os interesses particulares são sempre postos a frente, a realidade objetiva é a identificação da discussão sobre o futuro do negro. Contudo para isso é preciso a reeducação e a discussão de forma objetiva.

É de suma importância a análise de discursos e programas feitos pelos panteras negras. Muita coisa foi prejudicada e estereotipada com o passar dos anos pela indústria cinematográfica, colocando de forma análoga discussões centrais para o partido naquele momento e para o afrofuturismo concreto. Tirando do mundo das ideias o protagonismo e colocando no nosso dia a dia, a centralidade de discursos e programas levantados pelo panteras como parte da discussão afrofuturista, é levar os negros a um patamar que passem a conhecer seus ancestrais e seus valores de forma categórica e que tenham em si a atividade revolucionária e transformadora da educação marxista.

Para Hampton nada adiantava estar no local certo com as ferramentas erradas ou ter o mundo perfeito na sua cabeça, se você não estivesse pronto para enfrentar o mundo no qual estava inserido. Trata-se de algo que precisamos ter até hoje: saber que as discussões nos levam a um patamar elevado na metafísica e que a questão é quando isso torna-se material, quando de fato é aplicado, além de que forma e para quem é aplicado. É uma análise que sempre traz ideias novas e com elas esquecemos de aplicar para o material, porém é obrigatório colocar o materialismo dialético e a defesa do marxismo como centrais para um afrofuturismo concreto.

A atualidade das falas de Hampton dialoga com o futuro negro de forma direta, quando ele se pergunta como é a sua atuação no movimento, e com que forças e armas você combate o racismo, e como essa estrutura, que é parte de uma hiper estrutura capitalista, achincalha e menospreza o negro, assim como quais são as saídas e os exemplos a serem seguidos trazendo a discussão mais uma vez para a realidade.

Fred Hampton é com toda a certeza um dos maiores representantes de um povo negro esclarecido e rumo ao afrofuturismo. Alguém que rompeu as barreiras de um palanque e mostrou como deve ser participativo e ativo na realidade do negro enquanto parte de uma sociedade que tenta de todas as formas acabar com o capitalismo, lutando pelo socialismo e com a visão futurística real do negro.


Márcio Paulo é historiador, pós-graduado em Filosofia e graduando em Ciências sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul, e colunista da revista Clio Operária.


Bibliografia

https://www.novacultura.info/post/2020/04/16/hampton-e-uma-luta-de-classes-porra

https://revistaopera.com.br/2018/03/15/quando-eu-morrer/

Raça, classe e revolução: a luta pelo poder popular nos Estados Unidos / Partido dos Panteras Negras [et al]; organizadores Jones Manoel, Gabriel Landi - São Paulo- SP: Autonomia Literária, 2020.


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